sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Maite, 26 anos, vítima da I Guerra Mundial...


Quando Maite Roel mostra o seu cartão de veterana da I Guerra Mundial aos funcionários dos caminhos de ferro, um cartão onde se pode ler

mutilée dans la guerre

eles desconfiam. Como escreve Robert Fisk no Independent, devem pensar que ela roubou o cartão a um tetravô... Mas não. Maite foi vítima de uma bomba largada pela RAF na região de Bovekerke, na Bélgica, em 1918. O engenho explodiu 76 anos mais tarde, numa noite de 1992, quando ela acampava com o seu grupo de escuteiros. Sobreviveu depois de submetida a 29 cirurgias. Mas as dores nunca a abandonaram. Sim, ela ficou mutilada na guerra. Uma guerra de que nada sabe. E de que, como tentou explicar a um incrédulo Fisk, não quer mesmo saber.

Um Mandela para a Palestina



«And while I strongly oppose attacks and the targeting of civilians inside Israel, our future neighbor, I reserve the right to protect myself, to resist the Israeli occupation of my country and to fight for my freedom.»
Marwan Barghouti

A Reuters publica hoje uma entrevista rara, concedida por escrito e por intermédio de advogados, a Marwan Barghouti, o «pai» da Intifada palestiniana que está preso em Israel desde 2002 - foi condenado a cinco penas de prisão perpétua pela autoria moral da morte de cinco israelitas.
Há cinco anos, quando Yasser Arafat foi evacuado para um hospital em Paris, de onde regressaria já sem vida, visitei a sede do movimento Free Barghouti, em Ramallah, tentando compreender quem era este homem que todos os palestinianos me diziam ser o único capaz de suceder a Arafat. Percebi que, mesmo na prisão, quase sem contacto com o mundo exterior, ainda era ele que negociava tréguas entre grupos rivais. Respeitado pela Fatah e pelo Hamas, era também uma figura que recolhia simpatias internacionais. Talvez porque, apesar de defender a «resistência contra o ocupante», sempre disse repudiar os atentados contra civis. Muitos consideram-no o «Mandela palestiniano» e a sua libertação tem sido defendida por personalidades como Noam Chomsky, José Saramago... e o próprio Nelson Mandela.
Há cinco anos, quando os palestinianos se viram perante a necessidade de eleger um novo presidente, Barghouti liderava todas as sondagens. Mesmo condenado a morrer na prisão, ganharia a todos os adversários, com maioria absoluta. Mas acabou por anunciar que não se candidatava e apoiou Mahmoud Abbas (que venceu).
Agora, com a Autoridade Palestiniana de novo à beira do colapso, volta a falar-se em Barghouti para unir as várias facções e devolver alguma esperança e ânimo ao povo. Nesta entrevista à Reuters, diz-se disposto a «ponderar» a possibilidade... Mahmoud Abbas já anunciou que não será candidato às eleições previstas para Janeiro e não se perfilam candidatos com o carisma necessário para ressuscitar o sonho da paz e da independência.
As próximas semanas poderão trazer desenvolvimentos decisivos: as negociações para a libertação do soldado Gilad Shalit, raptado por um grupo palestiniano em 2006, estarão bem encaminhadas. A lista de prisoneiros a «trocar» já teve muitas versões mas no topo das prioridades, com o acordo da Fatah e do Hamas, resiste sempre um nome: Barghouti, pois claro.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

leitura da semana


Para assinalar o 20º aniversário da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, o El País publica hoje o resultado de um projecto especial, Niños del Mundo, realizado com a colaboração da Unicef. Durante seis meses, cinco jornalistas e uma fotógrafa visitaram 20 países, para contar 20 histórias que representassem problemas abordados pelos artigos da Convenção. E aqui estão as histórias de 20 crianças que, apesar de partilharem o mesmo planeta, vivem em mundos muito diferentes.
Parte do extraordinário trabalho da fotógrafa Isabel Muñoz pode ser visto aqui. Os textos são para ir lendo devagarinho, ao longo da semana. Há histórias felizes, mas também as que custam a ser digeridas. Como tão bem nos explica Rafael Ruiz, quando escreve sobre os meninos-soldado de África:

Son historias difíciles de escuchar, leer, digerir. Menores de sólo cinco, seis o siete años que fueron raptados mientras dormían. Trasladados a otros países. Violados, torturados. Obligados a luchar y matar.

A verdade é que, 20 anos depois das assinaturas dos senhores do mundo, na sede da ONU, a Convenção ainda é pouco mais que um conjunto de boas intenções. Até quando?


O texto da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, em Português.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Precisa-se: dinheiro para reportagem


O New York Times publicou pela primeira vez uma reportagem financiada por leitores. Para escrever o artigo Afloat in the Ocean, Expanding Islands of Trash, que fala sobre a acumulação de lixo no Pacífico, a jornalista Lindsey Hoshaw pediu ajuda à comunidade de Los Angeles, através do site Spot.Us, criado para angariar dinheiro para jornalistas freelancers poderem concretizar os seus projectos de reportagem e/ou investigação.

Lindsey recolheu 6 mil dólares e foi escrever a sua história. Segundo as regras do site, quando o trabalho é vendido a um grande meio (como foi agora o caso), os lucros são distribuídos pelos cidadãos que contribuíram inicialmente para o projecto.

Este tipo de iniciativas conquistam cada vez mais espaço nos EUA, levando vários estudiosos dos Media a apontar a filantropia como um caminho para o financiamento (e sobrevivência) do jornalismo de investigação - já em vias de extinção até nos grandes jornais de referência...

pausa informativa...

Acabei de assinar esta petição, pedindo aos líderes mundiais, que se reunem na próxima semana em Roma, que cumpram as suas promessas e invistam 20 mil milhões de dólares na área da agricultura, nos países em desenvolvimento. A cada três segundos, há uma pessoa a morrer de fome. Nós temos os meios para acabar com este problema, é preciso que os cidadãos deixem bem claro a quem nos governa que esta é uma absoluta prioridade, que nos preocupamos, que não perdoamos o facto de continuarem a fechar os olhos. Não em nosso nome.
Durante a cimeira de Roma, que durará dois dias e meio, vão morrer de fome mais 60 mil pessoas - 70% serão crianças. Dá que pensar, não dá?


Podem assinar (e saber mais) aqui:
http://www.avaaz.org/en/world_hunger_pledges/98.php?CLICK_TF_TRACK

P.S. E acaba de ser lançada outra petição, pela ONU:

http://www.1billionhungry.org/

leitura da semana



(Um polícia iraquiano junto ao local onde morreram 17 civis, em Bagdad, na sequência de um tiroteio envolvendo elementos da Blackwater. Foto: Khalid Mohammed/Associated Press)


Reached by phone, Mr. Jackson, who resigned as president of Blackwater early this year, criticized The New York Times and said, “I don’t care what you write.”


O New York Times publica hoje um artigo de investigação revelando que a empresa de segurança privada Blackwater pagou um milhão de dólares a oficiais iraquianos para «perdoarem» o caso da morte «acidental» de 17 civis em Bagdad, em Setembro de 2007.


Being blocked from the country would have been costly — the State Department deal was Blackwater’s single biggest contract. From 2004 through today, the company has collected more than $1.5 billion for its work protecting American diplomats and providing air transportation for them inside Iraq.


Que bom é ler jornalismo de investigação assim, ao melhor nível. Fez-me lembrar uma passagem do filme Ligações Perigosas, (State of Play) em que um jornalista, investigando as ligações entre políticos e a organização de segurança privada PointCorp (inspirada na Blackwater...), diz à sua directora:


"People still know the difference between real news and bullshit."

Ora aqui está um belo exemplo de «real news».

domingo, 8 de novembro de 2009

Berlim

Angelika Wachs, esta semana, no checkpoint Charlie. Segundo a jornalista Alison Smale, Angelika foi a primeira cidadã alemã de Leste a «derrubar» o muro: e passou com a repórter ao seu lado!
(Foto: Gordon Welters/International Herald Tribune)


No dia 9 de Novembro passam 20 anos sobre a queda do muro de Berlim. Muito se tem escrito sobre o assunto mas quero aqui hoje destacar uma iniciativa do New York Times, que convidou leitores de todo o mundo a partilharem as suas recordações e imagens desse dia histórico. No site estão já histórias verdadeiramente fabulosas, destacadas no projecto The view from the Wall. Basta clicar numa imagem para ler uma breve descrição, escrita na primeira pessoa. Um belo exemplo do chamado citizen-journalism.

Mas vale a pena ler os artigos dos verdadeiros jornalistas, sobretudo o testemunho impressionante de Alison Smale, Chasing the story on an night that changed all. Alison, hoje editora executiva do International Herald Tribune, trabalhava na altura para a Associated Press. E acabou, de forma extraordinária, por fazer parte da história:
A pimply young man, barely in his 20s, sat at passport control. He looked at my British passport, and then at Angelika’s papers, which somehow bore a rare stamp permitting her to visit West Berlin. But it was only valid Nov. 17, he objected. I urged him to consider what was happening. He shrugged. He pressed the switch to open the door. We tumbled through.

It was the only moment in my life when I pinched myself to see if I was dreaming. I had just crossed Checkpoint Charlie with this stranger, a woman exactly my age, 34, a citizen of Communist East Germany.

There were only a handful of West Berliners on hand to cheer our arrival. Shouting that it was “unglaublich,” or unbelievable, Angelika ran off to seek a ride to a friend who had escaped west years earlier, and I headed for a cheap bar where I glommed on to that precious commodity, a telephone.

All day, I had not spoken to my Associated Press colleagues in West Berlin — there were only a few land lines, constantly busy, linking East and West. Now I had them on line and screamed: “Guess what I just did! I crossed Checkpoint Charlie with the first East German!”


Essa mulher, que terá sido a primeira a «derrubar» o muro chama-se Angelika Wachs e continua a viver em Berlim. A jornalista conseguiu contactá-la de novo na semana passada e, no próximo dia 16, têm encontro marcado na cidade alemã: «Para beber o copo que acabámos por nunca beber, há 20 anos».

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Guerra em casa

Foi o maior ataque de sempre a uma base militar em solo norte-americano: em poucos segundos, Nidal Malik Hasan, um muçulmano nascido na Virginia e psiquiatra daquela base, em Fort Hood, Texas, matou 12 pessoas e feriu gravemente outras 31.
Segundo a CNN, Hasan seria enviado para o Iraque no próximo dia 28 e tinha já dito, a vários amigos e familiares, nos últimos dias, que não conseguiria participar naquela guerra. O New York Times cita um primo, que reforça essa ideia. Hasan acompanhava militares com stress pós-traumático e «ouvia falar, diariamente, dos horrores que viveram lá».
O atirador foi atingido várias vezes mas sobreviveu e, segundo as últimas informações, está estável e sob custódia militar. Os investigadores descartam, para já, qualquer ligação deste psiquiatra a movimentos terroristas se bem que, segundo a CNN, o FBI teria iniciado uma investigação há seis meses, quando detectou um comentário de Hasan num blogue, falando de bombistas suicidas.
Todos os militares mortos e feridos iriam partir brevemente em missão, para o Iraque ou para o Afeganistão. Em Fort Hood realizam os últimos testes médicos e assinam os testamentos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Obama, um ano depois


Um ano depois da histórica noite da vitória de Obama, em que milhões choraram ao ver cumprida a promessa de «mudança para a América», o que resta do sonho?

Hoje, no Washington Post, Eugene Robinson descreve exactamente aquilo que penso e gostaria de ter escrito:

«It's been a year since a healthy majority of American voters elected Barack Obama to change the world. Which is precisely what he's doing.
Like many people who desperately want to see the country take a more progressive course, I quibble and quarrel with some of President Obama's actions. I wish he'd been tougher on Wall Street, quicker to close Guantanamo, more willing to investigate Bush-era excesses, bolder in seeking truly universal health care. I wish he could summon more of the rhetorical magic that spoke so compellingly to the better angels of our nature.
But he's a president, not a Hollywood action hero


Nem mais.

Happy anniversary, Mr. President.

domingo, 1 de novembro de 2009

As paixões de Penélope



(Fotografias de Mert Alas e Marcus Piggott/Vanity Fair)
Dela, Woody Allen já disse:
«I don't like to look at Penélope directly. It's too overwhelming».
Nas páginas da Vanity Fair deste mês, percebe-se bem porquê. Penélope Cruz é muito mais do que uma mulher bonita. Como se descobrirá também lendo o belíssimo perfil que a jornalista Ingrid Sischy assina, The Passions of Penélope, a propósito da estreia de mais dois filmes com a actriz espanhola como protagonista (Abraços Desfeitos, de Almodóvar, e Nine, de Rob Marshall).

sábado, 31 de outubro de 2009

Madoff e o Halloween


«Why main street hates Wall street», ou, numa tradução livre, porque é que o povo odeia os grandes especuladores da bolsa: eis o tema de capa da Time, publicada na véspera de um Halloween em que a máscara mais popular nos EUA é a de... Madoff, pois claro, um dos homens que fez o planeta apertar (ainda mais) o cinto. O Frankenstein que se cuide, é difícil imaginar monstro mais assustador que o «papa-dólares»...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Freedom

Todos já passámos por isto: iniciamos uma pesquisa na Internet, descobrimos outros assuntos paralelos (estejam ou não ligados ao nosso objectivo inicial...) e, quando damos por isso, o tempo voou! Para aumentar a produtividade, há cada vez mais pessoas a optar por um isolamento forçado, recorrendo a um programa informático que bloqueia o acesso à Internet durante 8 horas.
Sim, para a maioria não chega desejar não aceder à net... Com o símbolo do globo a girar no canto inferior do nosso ecrã, é difícil resistir. Será que o-não-sei-quantos me respondeu ao e-mail? O que é um palíndromo? Vou só fazer uma pausa e espreitar o facebook... Tentações não faltam.
Para evitar as distracções, escreve Peggy Orenstein no New York Times, já há mais de 4 mil pessoas a fazer mensalmente o download deste programa (que só funciona em Mac), impondo a proibição de acesso. Curiosamente, a aplicação chama-se Freedom... Será que existe para PC? Vou investigar...

domingo, 25 de outubro de 2009

Violência no Rio

(Foto: João Pina)

Na semana em que a violência voltou a explodir nas favelas brasileiras, destaco novamente o trabalho do fotógrafo português João Pina, publicado há um mês na New Yorker. Hoje, são as suas imagens do Rio que voltam a acompanhar outra grande reportagem, desta vez na revista do El País.
Em Rio de Janeiro, Ciudad de Dios y del Diabo, o jornalista Bernardo Gutierrez leva-nos pela mão, pelas ruelas das zonas mais pobres e perigosas da cidade, apresentando-nos as pessoas que ali vivem. Ou aquelas que, pura e simplesmente, por força do do ofício, têm de conviver com aquela brutal realidade.

«Antonio conduce el rabecão, una furgoneta de los bomberos militares de Río. El teléfono sonó hace un rato, como cada hora. La Policía Militar le informó dónde recoger el muerto. "Tenemos 40 minutos para retirar los cadáveres de la vía pública", dice. Tiene 30 años. Hace seis que recoge muertos casi a diario. "Viví rebeliones en prisión, masacres". Todavía no sabe que hoy le espera un cuerpo totalmente quemado con un olor insoportable. Hace unos días fue peor: una mujer embarazada con dos tiros en la espalda.
Varias veces al día, "el taxi del más allá" de Antonio (como llaman al rabecão) entra en el Instituto Médico Legal, en la céntrica calle del Riachuelo. Las paredes de la morgue están forradas de fotos de desaparecidos. Marcelo Sampaio, 26 años. Alex Alves, 17 años. Hay anuncios de funerarias 24 horas. "Llegan entre 20 y 30 todas las noches", confiesa un hombre que lleva 18 años repitiendo su ritual: esperar "el taxi del más allá". Empujar el presunto (jamón), como llaman a los muertos. Y dejarlo en el depósito de cadáveres, en fila, a la espera de una autopsia.»


As fotos do João Pina podem ser vistas aqui e aqui. Este trabalho, que desenvolveu nos últimos dois anos, sob o título Gangland, estará em exposição na KGaleria, em Lisboa, a partir de 5 de Novembro.

sábado, 24 de outubro de 2009

By the People - The election of Obama

Na véspera do dia em que se celebrará o primeiro ano da eleição de Barack Obama, a HBO transmitirá um documentário que não quero perder. Podem saber porquê, vendo o trailer de By the people.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Últimas palavras


Michael Graczyk é jornalista da Associated Press e tem uma missão invulgar: é ele que cobre todas as execuções no Texas, o Estado norte-americano com a maior taxa de condenações à morte. Desde o início dos anos 80, já assistiu a mais de 300 execuções e, não raras vezes, é a única pessoa na sala, além dos guardas prisionais, a ouvir as últimas palavras dos condenados. Uma história a ler no New York Times.

Jack Nelson (1929-2009)

Morreu ontem Jack Nelson, um dos melhores jornalistas norte-americanos, vencedor de um prémio Pulitzer. Nelson fez a sua carreira em Washington ao serviço do Los Angeles Times, tendo revelado detalhes fundamentais do caso Watergate, mas começou a trabalhar no Sul dos EUA, cobrindo com risco para a própria vida o movimento dos direitos civis naquela região, nos anos 60. Fez também várias reportagens sobre o Ku Klux Klan, que deram, mais tarde, origem a um livro. Foi um dos 13 fundadores do Reporters Committee for the Freedom of the Press, instituição que, nos últimos 40 anos, tem sido uma referência no apoio moral e jurídico aos jornalistas norte-americanos.
Já reformado, continuava a acompanhar o que se passava no meio, sendo muito crítico em relação ao peso crescente da opinião e do entretenimento nos jornais. Defendia que as pessoas procuram os jornais por uma única razão: factos.
«Os leitores querem descobrir factos que desconheciam e, de preferência, factos que alguém não queria que fossem conhecidos.»

terça-feira, 20 de outubro de 2009

leitura da semana II


Ainda faltam três semanas para a efeméride mas a imprensa mundial já começou a dar-lhe páginas e páginas de atenção. Falo dos 20 anos sobre a queda do muro de Berlim, sem dúvida um dos acontecimentos mais marcantes do séc. XX.
A revista deste domingo do El País, inteiramente dedicada ao tema, é mais uma daquelas edições para guardar, com grandes entrevistas e reportagens, acompanhadas por belíssimas imagens - algumas históricas, outras concebidas para esta edição especial. A descobrir integralmente online, aqui.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

leitura da semana

A nova aventura do irreverente chef britânico é... na América. A revista do New York Times segue os primeiros passos de Jamie Oliver na região metropolitana de Huntington-Ashland, a mais «doente» dos EUA, com 50% de obesos.
Uma oportunidade para desenhar o perfil do cozinheiro-missionário, que se tornou famoso aos 23 anos, com um programa de tv divertido e despretensioso, devolvendo a alegria de cozinhar a milhões de pessoas. Oliver podia ficar-se por aí, gozando a fama e o sucesso, mas quis ir mais longe. Revolucionou as refeições escolares no seu país, conseguindo que o governo investisse mil milhões de euros em almoços mais saudáveis e equilibrados; atacou a indústria de comidas processadas, incentivando-as a usar menos açúcar e gorduras; e criou um programa de apoio a jovens com problemas sociais, pagando-lhes os estudos.
Agora, quer que os americanos voltem a cozinhar - a maioria compra fast food ou comida pré-congelada... and that's it. Os resultados estão à vista: excesso de peso, problemas cardiovasculares, diabetes, etc, etc.
Não sei se Jamie Oliver terá sucesso mas esta sua nova missão, que será acompanhada pelas câmaras de tv, para um programa intitulado «Food Revolution», vai deixar seguramente as suas marcas. E a verdade é que ele tem razão: precisamos mesmo de repensar toda a forma como produzimos e confeccionamos aquilo que comemos.

domingo, 11 de outubro de 2009

Prémios Bayeux


Como sabem todos os que acompanham este blog, raramente uso este espaço para falar de mim ou do meu trabalho. Mas, sobretudo depois desta notícia na Visão, e de outras na imprensa nacional, sinto que devo abrir uma excepção para partilhar convosco a felicidade de ter sido uma das dez jornalistas seleccionadas pelo júri dos Prémios Bayeux-Calvados para Correspondentes de Guerra.

Na quinta-feira passada viajei para Bayeux, na Normandia (a primeira cidade libertada na Segunda Guerra Mundial, na sequência do Dia D) para me juntar a dezenas de jornalistas de todo o mundo - repórteres do Times, do Figaro, da BBC, do El País, os melhores nesta difícil missão de reportar o que se passa em zonas de conflito.
A «julgar» os trabalhos, durante dois dias, esteve reunido um júri de luxo, presidido pelo fotojornalista Patrick Chauvel e composto por 50 profissionais do New York Times, Independent, Nouvel Observateur, Paris Match, Le Monde, Repórteres Sem Fronteiras, CNN, Reuters...

Viajei com o coração cheio de alegria mas vazio de expectativas. Sem falsas modéstias, conheço as minhas limitações - e as limitações das condições em que trabalho. Sei que parece uma frase feita, mas já era mesmo uma vitória estar entre os nomeados: não só fui a primeira jornalista portuguesa a ser escolhida pelo júri, desde que o prémio foi instituído, como a reportagem Gaza: terra fértil para mártires, foi a única a ser seleccionada entre os trabalhos de dezenas de enviados especiais que cobriram a guerra naquele território, no início deste ano.

É por isso que, não tendo ganho, não sinto que tenha perdido.

O que perceberão ainda melhor ao ver que o prémio foi atribuído a Christina Lamb, do Sunday Times, por uma das suas reportagens no Afeganistão, região que conhece há mais de 20 anos. É uma das mais reputadas jornalistas do mundo, várias vezes premiada e eleita, por duas vezes, Correspondente Estrangeira do Ano. Aliás, foi também com uma reportagem no Afeganistão, na sequência da ocupação soviética, que recebeu, em 1988, o seu primeiro prémio, nos British Press Awards.
Deixo-vos os primeiros três parágrafos da reportagem Afghanistan: Mission Impossible, esperando que sigam o link e continuem a leitura. Ao fazê-lo, perceberão melhor porque voltei de Bayeux com o coração ainda mais cheio. Sobretudo cheio de vontade... de fazer mais e melhor.

"There is something sinister about the Chinook helicopter, like a giant, dark insect bearing down from the skies to disgorge battle-weary soldiers amid clouds of hot dust. When I think about war, whether it be ones I have reported in Iraq or Afghanistan or seen in Vietnam movies such as Apocalypse Now, the soundtrack in my head is always that of the throbbing blades coming closer and closer.
Last week I sat perched inside a Chinook flying over Helmand, trussed up in flak jacket and helmet, squashed between some Royal Marines arriving for a six-month tour. Unable to talk over the loud rotors, some had earphones attached to iPods. Others, like me, had to make do with yellow military-issue earplugs and spent the journey watching the gunner scour the parched land below through the open back.
For long distances there was nothing to see but our dark shadow skimming across the desert. On the horizon was a camel train, perhaps carrying the opium that will end up as heroin on British streets. Temperatures can exceed 50C out here, and the one mudwalled settlement we see seems to be sinking into the sands like an ancient ruin. Miles and miles from anywhere, we fly low over a man with a cloth turban wrapped round his head and a small herd of ragged brown sheep. He does not even look up. What does he think about these foreign soldiers flying back and forth, I wonder."

domingo, 4 de outubro de 2009

Polanski files

Foto: Samantha Geimer, no final dos anos 70. Em 1977, quando tinha 13 anos, foi drogada e violada pelo realizador Roman Polanski, que se declarou culpado em tribunal, fugindo depois... para nunca mais voltar aos EUA

Marcia Clarck, a procuradora que acusou O.J. Simpson publica, no Daily Beast, uma análise do caso Polanski. Recuperou o processo de 1977 e publica várias transcrições que não deixam o realizador nada bem no retrato... A descobrir, em The Lost Polanski Transcripts, e a aprofundar no especial sobre os 32 anos em que o realizador andou fugido à Justiça, até que foi preso, esta semana, na Suíça.