quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ruínas que Falam - Em busca da alma haitiana

Dura pouco mais de 5 minutos... não percam nem um segundo deste emocionante testemunho dos enviados especiais da revista brasileira Veja a Port-au-Prince.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A minha segunda reportagem no Haiti


Também eu não consegui, desta vez, deixar todas as minhas emoções à margem do texto...
A pedido dos muitos que me escreveram, lamentando não ter conseguido comprar a Visão, aqui fica a última reportagem que escrevi em Port-au-Prince.

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O país dos órfãos

Nas ruas de Port-au-Prince vêem-se miúdos perdidos, caminhando de forma errante, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Há orfanatos sobrelotados e improvisados em tendas. Há bebés a desaparecerem dos hospitais, roubados por traficantes sem escrúpulos. Há pais em estado de choque, que mal conseguem balbuciar o nome dos filhos, sepultados nas escolas onde aprendiam a ler. São as vidas que o sismo levou – e não as réplicas que continuam a abalar o Haiti – o que mais faz estremecer os corações de quem escapou

Por Patrícia Fonseca, enviada especial

Joseph entra a medo no que resta da sua casa, avança com cuidado por entre os destroços e pára junto a uma mesa de madeira, coberta de pó. Agarra numa panela amolgada e suspira: «Ela estava aqui, a adiantar o jantar...» Ela era Angel Julmisse, tinha 34 anos e uma alegria que contagiava todos os que a conheciam. Trabalhava ao balcão de uma loja do centro de Port-au-Prince e, naquele 12 de Janeiro em que a terra tremeu, saíra mais cedo.

Faltavam oito minutos para as cinco da tarde. A filha de 11 anos, Widchine, ainda estava na escola. Os dois mais pequenos, Abdia Adriano, 4 anos, e Celena, de 3, brincavam no quintal da avó materna, duas ruas ao lado. Joseph lixava uma estante, na sua oficina de carpintaria. Em menos de um minuto, o sismo de 7.0 graus na escala de Richter arrasou a cidade – e a vida desta família.

O carpinteiro pôs um pé na rua instantes antes de a sua oficina desabar. Ficou caído no meio da estrada, sentindo o bairro chocalhar, ouvindo os gritos de uma cidade em pânico sobrepondo-se ao rugir enraivecido da terra. Assim que tudo parou, Joseph viu-se no meio de uma multidão de feridos e de mortos. Todas as casas à sua volta estavam no chão. A sua velha motorizada estava soterrada por pedregulhos. Desatou a correr para casa, a mais de cinco quilómetros de distância, temendo pelos seus. O sol já quase morria quando entrou na sua rua e, por momentos, sentiu alguma esperança. Havia casas de pé. A sua tinha desabado parcialmente. A parte da frente estava espalhada pelo chão, transformada num amontoado de tijolos e poeira. «Gritei por ela e pelos meus filhos, revirei tudo mas não os encontrava...» Até que viu uma mão. Angel ficou debaixo da parede da cozinha e Joseph não tinha forças para a arrancar de lá. Correu para casa da sogra, onde encontrou os filhos a salvo, e convenceu um vizinho a tentar ajudá-lo a resgatar Angel. Mas a força de dois homens não chegava para mover o pedaço de parede que a sepultava. A noite caiu e ele ficou ali, agarrado à sua mão sem vida, soluçando até amanhecer.

Foi o cunhado, Julmisse Vital, que o encontrou aninhado nos escombros, às primeiras horas da madrugada, em estado de choque. «Levei quase uma hora a convencê-lo a largar a minha irmã... Depois conseguimos tirá-la e fizemos um funeral simples, nesse mesmo dia.» Desde então, Joseph não dorme. Fica a velar pelos filhos, que agora vivem na casa da avó, uma casita pobre que miraculosamente resistiu ao abalo. As camas, porém, foram transferidas para o quintal - ninguém ousa ainda deitar-se sob outro tecto que não seja o céu.

O carinho que une este pai aos seus filhos é notório, é difícil vê-lo dar um passo sem a pequena Celena ao colo e Abdia Adriano pela mão. Mas ele quer dá-los para adopçãoe tentar emigrar. «Já fui a três orfanatos e dizem que não podem ajudar-me. Não sei que fazer... não tenho dinheiro, não tenho trabalho, não tenho comida para lhes dar.» Com 11 anos, Widchine percebe tudo o que pai vai dizendo. Enrola a ponta da saia com os dedos nervosos, os olhos pregados ao chão. E estremece quando Joseph me suplica que os leve comigo. «Se não pode tomar conta dos três, pelo menos fique com esta», diz, atirando Celena para os meus braços: «Leve-a, leve-a.»

Proibido adoptar
Sair com uma criança do Haiti é, neste momento, quase impossível. Pelo menos, de forma legal. Só com uma assinatura do primeiro-ministro, que chamou a si todo o controlo dos processos de adopção, na quarta-feira, 20. Além disso, só são admitidos pedidos para acelerar os processos que já tivessem sido iniciados antes do terramoto. Num país que terá agora perto de dois milhões de órfãos, o governo congelou todas as adopções depois das notícias de que estariam a ser levadas crianças para fora do país com papéis de origem duvidosa – ou sem quaisquer documentos, a bordo de pequenas avionetas privadas norte-americanas, que começaram a pousar no aeroporto da cidade menos de 24 horas depois do sismo. Segundo a Unicef, pelo menos 15 bebés foram levados de hospitais da cidade por redes de tráfico de crianças, que descobriram no meio da desgraça das famílias haitianas uma nova oportunidade para fazerem negócio. Dos orfanatos saíram também algumas centenas por intermédio de agências de adopção e congregações religiosas que, agora, estão a ser investigadas pela Unicef e pela polícia local.

É o caso da igreja de Brent Gambrell, um pastor presbiteriano de Nashville, nos EUA, que na sexta-feira, 22, estava no aeroporto de Port-au-Prince, ao lado de um avião privado, com uma menina ao colo. «Não estou a fazer nada ilegal e só quero ajudar estas crianças a terem uma família», diz, irritado. A pequena Julie, que terá quatro a cinco anos e esconde a cara, muito assustada, terá «pais novos» à sua espera, no aeroporto de Fort Laurderdale, na Flórida. Segundo Gambrell, Julie já estava em processo de pré-adopção pelo casal norte-americano antes do terramoto. «Estava num orfanato de Carrefour, onde morreram muitas crianças. Salvei de lá as que pude.» Não diz quantas. Mas acaba por contar que já fez a ligação entre Port-au-Prince e Fort Laurderdale «muitas vezes», nos últimos 10 dias, em aviões privados «de amigos ricos que quiseram ajudar». E como, e porquê, chegou o pastor ao Haiti? «Uma grande amiga minha [norte-americana] ligou-me desesperada porque a sua filha, de 22 anos, estava a fazer voluntariado no orfanato de Carrefour. Não havia telefones, ninguém tinha notícias, estaria morta, ferida? Deram-me um avião e eu vim. Aterrei aqui 12 horas depois do terramoto. E encontrei-a! No dia seguinte, já estava nos EUA.»

Com a filha da amiga, acaba por assumir, foram também as crianças que couberam no pequeno avião. E como mais ficaram para trás, ele voltou. Uma e outra vez. Agora está no aeroporto da capital do Haiti há dois dias, «preso por burocracias». Na embaixada dos Estados Unidos em Port-au-Prince, o processo de Júlia juntou-se ao de milhares de pedidos de vistos de emergência. Só na sexta-feira, 22, estavam mais de 400 crianças nas instalações norte-americanas, para serem identificadas antes de, eventualmente, poderem partir.

Um camião-berçário
Cento e sete dessas crianças estão ao cuidado do orfanato Maison de les Enfants de Dieu, uma instituição religiosa na zona mais pobre do bairro de Delmas. O director, Pierre Alexis, jura que já tinham processos de adopção iniciados antes de 12 de Janeiro. «Acontece que os trâmites podem levar até 24 meses e a maioria ainda estava numa fase inicial. Mas com esta desgraça, não há tempo para papeladas. Estamos a dormir na rua, sem comida, sem água. Estes meninos têm famílias à espera deles e devem poder partir, o mais depressa possível.»

A casa, que servia de abrigo a 135 crianças e 26 bebés, ruiu parcialmente. O muro que rodeia o orfanato está sulcado de rachas e sustém a custo um enorme portão de ferro. No quintal há tendas a servir de quartos, e uma sala de estar improvisada, com um sofá de palhinha cravado na terra e um toldo de plástico a fazer de tecto. Dezenas de miúdos correm descalços à volta da casa ou saltitam nos colchões espalhados pelo chão. Têm roupas gastas e sujas, com os seus nomes escritos a esferográfica azul: Leane, Guyto, Natasha. Mas nem sempre os nomes condizem. «Quantos anos tens, Eline?», pergunto a uma menina de oito ou nove anos, que se colou a mim como uma sombra, desde que cheguei. «Não...não Eline», diz com um sorriso envergonhado, estendendo o braço na minha direcção. Nas costas da sua mão pequenina, com as unhas pintadas de cor-de-rosa, estava a resposta certa: Seenia. A idade, não soube dizer.

Nas traseiras do orfanato, um velho camião voltou a ter utilidade. É na caixa de carga que está agora o berçário – sem berços, claro, apenas velhos cobertores embalando o sono de meninos dispostos em fila, muito juntinhos, com as testas brilhantes de suor. A maioria não tem fraldas, que por aqui escasseiam há muito. «Nos primeiros dias depois do terramoto, nem comida tinhamos. Água também não», diz Pierre. «Eles choravam com fome e nós chorávamos com eles», explica Marie, uma das amas, chegando com Berlando nos braços – um dos poucos bebés que o orfanato aceitou, nos últimos dias. «Tem oito meses e o pai e a mãe morreram no terramoto. A avó apareceu aqui, muito doente, suplicando-me que ficasse com ele. Foi um caso extremo. Só aceitei dez crianças até agora. Todos os dias recuso dez vezes mais», lamenta o director. «Não tenho onde os pôr. Nem o que lhes dar de comer.»

A história repete-se por todos os orfanatos da cidade. Na Village Espoir, apesar da palavra esperança que ostenta na fachada, as portas estão fechadas para novos órfãos. Daqui também não é provável que saiam crianças, a curto prazo. «A maioria dos meninos que vivem connosco têm pais – ou, pelo menos, um deles. São filhos de gente pobre, que não tem como os criar. Mas poucos são os que aceitam desistir deles para a adopção», explica a directora Marilude Nestor. O edifício imponente, de três andares, alberga 80 crianças – 25 são deficientes profundos. Mantém-se aparentemente intacto mas ninguém o utiliza. «Quando precisamos de alguma coisa, entramos a correr e saímos o mais depressa possível. A terra continua a tremer todos os dias, temos muito medo», diz Marilude, fazendo uma ousada visita guiada até ao segundo andar, onde ficam as salas de aula. A Village Espoir tem também escola, até ao ensino secundário. Numa das salas, um quadro de ardósia tem ainda escrita a última lição, explicando as utilidades do algodão. No topo direito, com letra infantil, permanece escrita a data fatídica: Mardi, 12 de Janvier de 2010.

Quando a terra tremeu, poucos foram os que conseguiram fugir para a rua. «Ficámos em pânico, alguns miúdos esconderam-se debaixo das mesas, eu corri para junto dos deficientes... seria impossível levar todos os que estão em cadeira de rodas para a rua, em tão poucos segundos. Foi Deus que nos valeu», acredita.

«Game Over»
A mesma sorte não tiveram milhares de crianças que estavam, nesse momento, em muitas escolas haitianas. Quase todas ruíram e dezenas soterraram todos os seus alunos, sem deixar sobreviventes. Kerina Materes, 32 anos, perdeu dois dos seus três filhos no liceu Gaston Bachelard, na cidade de Lêogane. Situada junto ao mar azul-turquesa, rodeada por palmeiras e praias com nomes convidando ao turismo, como Bikini Beach , Lêogane é hoje, contudo, um cenário nada digno de um postal. Esta foi a zona de epicentro do sismo, desfazendo mais de 90% das casas, e no ar ainda paira o cheiro a morte – cerca de 40 mil pessoas morreram aqui.

Kerina vende papaias e cana de açúcar no mercado local e vai fazendo negócio, sobretudo, junto das carrinhas coloridas, as tap-tap, que passam rumo ao interior rural da ilha, carregadas de gente em fuga. «O campo é pobre mas sempre há qualquer coisa para comer, aquilo que a terra dá...», explica Kerina. Ela preferia fugir para Santo Domingo, na vizinha República Dominicana, onde já trabalhou «em casas de família». Mas o bilhete de autocarro custa agora 100 dólares. E há muitas dificuldades para atravessar a fronteira.

Com o pouco dinheiro das suas poupanças fez questão de dar um funeral aos seus filhos. E aos seus pais. Sim, Kerina perdeu também o pai e a mãe. E a todos deu uma campa. «Não pude pagar aqueles caixões finos, os cascas de ovo, mas comprei umas caixas. E, pelo menos, sei onde eles estão», conta, lançando uma gargalhada despropositada. Há quem chore, quem esteja em choque e mal fale, há quem ria. Kerina ri muito. Recusa repetir os nomes dos seus mortos e diz que deixou o filho que sobreviveu, com 5 anos, em casa da avó paterna. «Não tenho cabeça.» Diz isto bamboleando o corpo e batendo palmas numa rua rasgada ao meio por uma fenda aberta pelo terramoto, passando pela fachada de uma casa de jogos em ruínas, onde ainda é possível ler, em letras garrafais, «Game Over». O jogo acabou também para esta mulher, que apenas aposta que não terá mais homens ou filhos. «Não volto a parir, nunca mais. Já chega de dor, já chega.»

Lêogane fica a duas horas de carro de Port-au-Prince e, pelo caminho, surge outra das zonas mais afectadas pelo terramoto: Carrefour. Este será, talvez, o local onde mais pais choram os seus filhos perdidos. Só na escola primária, que ruiu num segundo, morreram mais de 400 crianças que ali aprendiam o bê-á-bá. «Fui lá à procura dos meus filhos, estava tudo destruído... gritei, gritei, mas ninguém respondeu», conta Noel Jean-Marie, 43 anos, um reparador de pneus que fala sempre com a mão direita fechada sobre o peito, como que se isso pudesse servir de remendo para o seu coração. Niftale e Natalie tinham 7 e 8 anos. «Ontem [uma semana depois do terramoto], as máquinas começaram a limpar a zona da escola. Encheram quatro camiões de corpos. Tentei encontrar os meus meninos no meio de tudo aquilo mas não consegui». Terão acabado, junto com as outras crianças, enterradas em valas comuns de 20 por cinco metros, nos pântanos que rodeiam a capital.

A casa de Noel também se desfez «como se fosse açúcar». Dorme agora no estádio de futebol de Port-au-Prince, com a mulher, Kateline, e os dois filhos que lhe restam: Sege, 10 anos, e Natasha, 13. «Não sei o que vai ser da nossa vida», lamenta, ao lado das mulheres que ocuparam uma das bancadas do estádio, cozinhando o pouco que conseguiram arranjar nessa manhã, no mercado local. Em fogareiros de carvão, faz-se arroz com feijão e papas de farinha. Uma das panelas de ferro tem uma inscrição em jeito de prece: «Jesus». Só uma mulher, Maranata, tem um peixe à espera de ser frito. É uma espécie de carapau, de consistência e cheiro duvidoso. O que em Portugal seria uma meia-dose é aqui partilhado por nove pessoas.

Pedófilos ao ataque
Numa outra zona do estádio, uma adolescente tenta adormecer a sua filha de 6 meses, Farencia, à sombra de um lençol esburacado, preso por três paus. Magdala tem 17 anos e uma perna envolta em ligaduras, que mal a deixa andar. Já não tem leite no peito e, durante dias, mãe e filha não tinham o que comer. Agora foram «adoptadas» por um casal que conheceram no estádio, James e Lovely, de 36 anos, e a sua filha Fara, com 13, voltou a sorrir por causa daquela «boneca» nova, uma bebé rechonchuda como poucas no Haiti. James é segurança privado e vai conseguindo trabalhar. «Agora têm-me chamado para ajudar organizações humanitárias, mas não é todos os dias.» Com o pouco que ganha, vai conseguindo comprar alguma comida. Dois sacos, de onde espreitam bolachas e uma garrafa de água, estão escondidos dentro da tenda que os acolhe. «Aproveito para dormitar um pouco ao final do dia porque à noite tenho de ficar de vigia. Há muitos roubos, temos de estar atentos.» No hospital norte-americano montado no que resta da universidade de Quisqueya, já tinha encontrado André Lagan, um jovem de 18 anos que ali chegara com dois tiros na coxa. Tudo para lhe roubarem um saco de arroz.

James teme que a violência aumente com a fome e queixa-se da falta de apoio das organizações internacionais. Diz que só conseguiu encontrar, por uma única vez, uma distribuição de água, junto ao palácio presidencial. «Temos fome, muita fome», repetem os seus vizinhos, querendo meter-se na conversa, mas logo desatam a correr para a zona do túnel, onde uma equipa muito especial se prepara para entrar. São as tropas americanas, que pelo terceiro dia aqui vêm distribuir comida: uma dose de ração de combate (noodles com galinha) e uma garrafa de água pequena para cada pessoa. O que trazem não chega para todos. Talvez para um quarto, se tanto. E os mais fracos, de entre as 3 500 pessoas que ali montaram tenda, ficam sempre para trás. Alguns miúdos conseguem furar por baixo das pernas dos mais velhos, resistindo às pisadelas e aos pontapés, e Stevon, que tem 11 anos e adora o Cristiano Ronaldo, já é perito nessas fintas. «Hoje só não consegui trazer a água», lamenta. Caiu-lhe das mãos e logo um matulão ficou com ela. «Onde estão os teus pais?», pergunto, enquanto um bando de catraios nos começa a rodear, curiosos com a minha presença. «Não sei...», começa por dizer. Logo um mais velho me interpela, com ar agressivo, inquirindo o que quero dali. Explico que procuro crianças órfãs, que ali estejam sozinhas, e é o meu guia local que me salva de um safanão. «Daqui ninguém rouba mais miúdos!», grita, desaparecendo no meio da multidão, arrastando Stevon pelo braço.

Uma senhora que assiste à cena explica que há «estrangeiros esquisitos que andam a levar crianças», não se sabe para quê nem para onde. O governo e a Unicef estão preocupados com as adopções ilegais mas, sobretudo, com estas «outras» redes de tráfico de crianças – as da pedofilia, que andarão à caça no Haiti.

Em todos os campos de refugiados, e por toda a cidade, há bandos de miúdos sozinhos. Criam cumplicidades, como os do grupo do estádio, dormem juntos, roubam juntos. Mas também há os que não têm ninguém. Como o menino desesperado que avistei do carro ao abandonar Port-au-Prince, chorando em soluços, procurando um rosto conhecido no meio da multidão. Teria oito ou nove anos e fixou-me por instantes. «O que foi?», perguntei à distância, esperando que me conseguisse entender. Mas ele atravessou a rua, continuando a sua busca. O meu carro arrancou no sentido contrário e, mesmo sabendo que seria impossível cruzarmos a fronteira, o meu coração não parava de repetir: «Leva-o, leva-o.»

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Leitura da semana

(Foto: João Pina/New Yorker)

Muito se escreveu sobre o Haiti mas o texto de Jon Lee Anderson, na New Yorker, é diferente de tudo o que já leram - garanto-vos! Em Portugal, raros seriam os jornalistas a arriscar um ângulo destes... Já não bastava a reportagem ser escrita na primeira pessoa - por cá, ainda somos sobretudo narradores distantes, tentando passar invisíveis -, como o jornalista não hesitou em assumir o seu papel na história, envolvendo-se na busca desesperada de uma comunidade por comida, colocando ao dispôr a sua carrinha pick-up e intercedendo por eles, junto das autoridades.

We told Nadia and her companions—there were nine of them—to hop into the back of the truck, and we set off to look for food. Despite the rumors, which had attracted several hundred Haitians to the road by the airport, to gather and stare hopefully, no food was being given out there. We drove onto a nearby field where there were tent camps and aid supplies, demarcated with a dozen or more national flags, but it was a bivouac, not a food-distribution point. We asked a U.N. peacekeeper where to find aid; he said he didn’t know. Someone told us that food was being handed out at a factory nearby, where the Dominicans had set up a base, and so we drove there.

Não é ele, obviamente, a personagem principal desta história: é Nadia François, uma mulher que anda por toda a Port-au-Prince, com um grupo de jovens e uma carta do padre da sua comunidade, à procura de mantimentos para os cerca de 300 habitantes do seu bairro (Fidel, em honra do líder cubano...). Uma heroína invulgar, com cadastro nos Estados Unidos, que se torna íntima de todos nós, a cada linha que passa. Pelo meio, conhecemos um sacerdote vodu, ladrões que são mortos nas ruas, voluntários americanos que não dormem. Uma história inesquecível. Obrigada, Jon Lee.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Inferno

(Foto: Timothy Fadek/Time)

Desculpem a ausência. Estive no Haiti. Prometendo voltar em breve a partilhar neste blog o que mais gostei de ler por aí, aqui fica a primeira reportagem que enviei de Port-au-Prince, publicada na revista Visão de 21 de Janeiro.
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O Inferno

Primeiro veio o terramoto, que arrasou a capital do país. Agora chegam os gangues armados, semeando a violência pelas ruas, onde o cheiro dos corpos putrefactos torna o ar irrespirável. Sem tempo para chorar os seus mortos, a população de Port-au-Prince luta desesperada pela sobrevivência, numa cidade onde tudo falta – até a paz

Por Patrícia Fonseca, enviada especial

Uma multidão, correndo como uma manada assustada, ocupa toda a largura da Grand Rue, a artéria principal do centro de Port-au-Prince. Homens e mulheres, velhos e crianças, fogem o mais depressa possível e na mesma direcção – a contrária ao local onde a BIM, a Brigada de Intervenção Motorizada do Haiti, acaba de chegar, disposta a acabar com os saques que se multiplicam nas lojas que ruíram naquela zona comercial, na sequência do terramoto do passado dia 12.

Os polícias furam um enxame de gente com coletes à prova de bala, capacete e shotguns. Gritam e disparam tiros para o ar mas têm ordens expressas do chefe da segurança presidencial: atirar a matar contra aqueles que não se rendam e entreguem as suas armas. É a tentativa desesperada de colocar ordem numa situação que ameaça tornar ainda mais insustentável a vida dos habitantes da capital do Haiti: uma cidade que, já antes do sismo, era uma das mais pobres e violentas do mundo.

Entre a população apavorada que foge, carregando o que conseguiu roubar (bolachas, arroz, rádios a pilhas), vêem-se ainda grupos de rapazes armados, de sorriso trocista, escondendo pistolas e facas nas calças. Outros têm nas mãos armas menos convencionais, como garrafas partidas, tesouras, martelos ou espetos de metal.

Os que foram apanhados pela polícia, ainda no topo ou no interior dos edifícios em escombros, já não sorriem. Da amálgama de cimento e ferro que é agora o supermercado Authentic, saem de forma ordeira, de olhos no chão e mãos no ar, passando em fila perante um polícia corpulento que os obriga a levantar as t-shirts. Os que têm armas escondidas ficam sem elas. E descem depois, a alta velocidade, pelas ruínas do supermercado, arriscando cair de uma altura de uns cinco metros, para escapar a uma bastonada.

A Grand Rue é um dos locais mais apetecíveis da cidade para as pilhagens que se multiplicaram em Port-au-Prince desde a passada sexta-feira. Contudo, nesta grande avenida comercial, agora reduzida a uma mistura de entulho, lixo e cadáveres, vêem-se ladrões de dois tipos. Uns pertencem a gangues armados, famosos por espalharem o terror nos bairros da cidade – como o grupo de Blade, um assassino que escapou da prisão de Carrefour na sequência do terramoto (com outros 3 500 prisioneiros), líder mítico de um dos grupos mais temidos. Em sua honra escreveram-se canções rap mas o seu reinado terminou há poucos dias, num banho de sangue. «Quando fugiu da prisão roubou uma M16 e uma Uzi, andava a roubar e foi abatido numa troca de tiros com a polícia», revela Roger, um inspector da judiciária haitiana que assistiu com a VISÃO aos saques da Grand Rue, na passada terça-feira de manhã.

Os outros ladrões são apenas pessoas famintas e desesperadas, que lutam pela sua sobrevivência. E perante essa gente, as autoridades vão fechando os olhos. É que, apesar das toneladas de comida que já chegaram de todo o mundo ao aeroporto internacional, a ajuda tarda em chegar à população. «Motivos de segurança», justifica a ONU. «Abandonaram-nos», repete-se em coro nos campos de refugiados.

«Se não vier comida e água urgentemente, a violência vai disparar», assegura Roger. «Um homem com fome é capaz de tudo. Até de matar.»

Água, água, água

O ambiente tenso alastra pela cidade e ganha força a cada dia que passa. Nas ruas há um formigueiro de gente permanente, de olhar esgazeado, andando sempre em passo acelerado, como quem está atrasado para um compromisso importante. Na verdade, tentam escapar a um encontro com a morte. E caminham quilómetros infindos durante o dia, procurando locais onde possa haver comida ou água. Não há qualquer informação sobre os locais de distribuição da ajuda humanitária – algumas organizações têm optado por fazer entregas de surpresa, para evitar tumultos, os miltares dos EUA lançam alguma comida a partir dos seus helicópteros. São meras migalhas face às monumentais necessidades da população.

Em desespero, há cada vez mais pessoas a tentar abandonar a capital, em direcção às zonas rurais, menos afectadas pelo sismo. Mas para fugir é preciso descobrir transporte – e com o preço da gasolina, que na terça-feira atingia já os 100 euros por galão (cerca de 4 litros), raros são os que têm posses para considerar essa opção.

Nos mercados locais, os poucos bens que se encontram à venda atingiram preços astronómicos. Vêem-se algumas bolachas, molhos de urtigas, garrafas de óleo e pouco mais. É quase impossível encontrar uma garrafa de água e as que existem podem custar até 5 euros – uma fortuna para uma população que, antes do terramoto, já figurava entre as mais pobres do mundo, sobrevivendo, em média, com menos de 75 cêntimos por dia. Nas ruas vêem-se muitas mulheres a apanhar a água azulada e putrefacta que corre pelas valetas da cidade. O que farão com ela, é difícil imaginar.

A água é uma das necessidades mais prementes e a organização brasileira Viva Rio é uma das poucas que está presente na cidade, a fazer distribuições diárias. «Estamos a distribuir em Belair, onde montámos quiosques de abastecimento, e no campo de refugiados de Kay Nou», diz André D’Ávila, coordenador deste projecto. A água está a chegar de avião, com a ajuda do exército brasileiro, que comanda a missão de paz da ONU, a Minustash, presente no território desde 2004.

Em Kay Nou, um antigo complexo industrial que abriga cerca de 1400 pessoas, o dia começa com um funcionário da ONG a gritar ao megafone as notícias que todos mais querem ouvir: «Vamos distribuir água das três às quatro da tarde», repete sem cessar, furando caminho por entre as tendas ali montadas, a abarrotar de mulheres e crianças. Ali pernoitam muitas das pessoas que, há uma semana, viviam nas casas daquele bairro – muitos até tinham trabalho e uma vida menos má, num país onde o desemprego atira para a pobreza extrema mais de 60% da população. «Perdemos tudo, só nos resta Kay Nou… não sei o que seria de nós sem a ajuda dos brasileiros», diz Pierre Louis, 36 anos, um professor de inglês que agora dorme no chão, nos dias em que consegue fechar os olhos. Ironicamente, acaba por explicar, «Kay Nou» significa, no crioulo falado pela maioria da população, «a nossa casa».

Este campo de refugiados acaba por ser, em comparação com as centenas de acampamentos desorganizados que nasceram na cidade, um pequeno oásis de calma, um dos raros sítios em que, além de água, se sente o cheiro da comida a fervilhar nas panelas.

No resto da capital, é o cheiro dos esgotos que domina, misturado com o do lixo que forra todas as ruas da cidade e com o odor dos milhares de cadáveres em decomposição, soterrados debaixo dos escombros – o que obriga toda a gente a andar de cara tapada. Quem não tem máscara usa lenços, camisolas, toalhas enroladas na cabeça. Há quem caminhe com pedaços de limão junto ao nariz ou enfie pasta de dentes nas narinas.

O calor que se faz sentir, sempre perto dos 35 graus, também não ajuda. Tal como as queimadas que se fazem a cada esquina da cidade, misturando lixo, pneus, pedaços de madeira e carcaças de carros. Mas também corpos. Depois de dias com milhares de cadáveres amontoados nas ruas, a população acabou por lançar fogo a muitas das vítimas que as autoridades não conseguiram recolher. Ainda se avistam algumas dessas piras fumegantes, em vários pontos da cidade. E há cadáveres que subsistem, já inchados e cobertos de moscas, à beira dos passeios. Ainda assim, até à passada segunda-feira a ONU estimava que 75 mil pessoas já haviam sido sepultadas em valas comuns - sem haver tempo para os identificar ou, sequer, num país onde a religião tem tanta importância, rezar uma prece pelas suas almas.
Em busca de sobreviventes

Durante a primeira semana após o terramoto, a prioridade foi dada aos vivos. Ainda há milhares de feridos graves sem qualquer assistência médica, incapazes de se deslocarem até aos poucos hospitais existentes. As equipas médicas viram-se também sem capacidade para socorrer todos os que os procuraram, debatendo-se com a escassez de meios materiais e humanos. Ainda assim, equipas como a do hospital La Paz, em Port-au-Prince, conseguem manter uma média de cerca de 700 cirurgias diárias – a maioria das intervenções são amputações de membros esmagados.

Muito atarefadas andaram também as 40 equipas de salvamento que chegaram ao Haiti, vindas de todo o mundo, para tentar descobrir sobreviventes. Até terça-feira, oito dias depois da catástrofe, resgataram 72 pessoas dos escombros. Johann Viggo Jorsoon pertence a uma equipa islandesa, com 36 elementos, que aterrou no Haiti menos de 24 horas depois do sismo. Na segunda-feira, 18, passaram o dia em busca de uma mulher que, segundo alguns familiares, teria conseguido fazer um telefonema nessa manhã, indicando estar presa debaixo de dois andares do prédio onde morava. «Disse que estava perto da torneira da água, estamos a tentar descobrir em que zona da casa seria», explica Johann, enquanto tenta comunicar, a custo, com os vizinhos que sobreviveram. As versões são contraditórias, é difícil perceber onde foram parar as divisões da casa, num prédio que parece ter sido implodido. A custo, vão escavando túneis de acesso a zonas de vácuo, criadas entre as placas de betão. Mas dali saem apenas tijolos, roupas, uma mala de outra senhora, com todos os seus documentos de identificação. «Essa está viva, é minha prima, está no campo de refugiados», explica um dos habitantes do bairro.

Ao final do dia, os islandeses, já exaustos, pedem reforços: a equipa K9 norte-americana, com um cão especializado a farejar sobreviventes. O cão mergulha veloz em todos os buracos existentes, regressando com o pelo preto coberto de poeira. Sempre que reaparece à superfície, instala-se um silêncio pesado, esperando para ver se ele faz a tão desejada marcação. Mas fica impávido, olhando o seu treinador, uma e outra vez. «Talvez fique baralhado com a intensidade do cheiro dos cadáveres…», diz Johann, que também esteve no interior do edifício e sabe como o ambiente era irrespirável. «Não podemos fazer mais nada, revirámos tudo. Introduzimos também câmaras nos locais mais inacessíveis e não a encontrámos. Também é possível que ainda estivesse viva de manhã e agora [ao final do dia] já não esteja», explica, resignado.

A equipa abandona o local com grande desânimo, perante uma multidão de gente que esperava, na rua em frente, por um milagre de vida, no meio de tanta mortandade. «Há dias assim, já ontem revirámos uma escola em busca de crianças sobreviventes e, infelizmente, das mais de 100 que sabíamos estar ali soterradas, não detectámos nenhum sinal de vida. Temos de nos agarrar aos momentos bons. No domingo salvámos três mulheres, num centro comercial. São esses rostos que temos de ter sempre presentes na nossa cabeça, para não desanimar.»

A equipa islandesa deverá regressar a casa nos próximos dias, explica Johann. «Sete dias é o limite para encontrarmos gente com vida. Mas às vezes os milagres acontecem…» A esperança é a última a morrer.
Um bairro-cemitério

É impossível saber quantas pessoas terão sobrevivido ao terramoto para morrerem dias depois, presas nos escombros. Na zona de Delmas 30, nos subúrbios de Port-au-Prince, os habitantes garantem que, até sábado, se ouviam muitos gritos de ajuda. «Mas não havia forma de os ajudarmos, não veio cá ninguém saber de nós e aqui ninguém tem máquinas ou ferramentas», lamenta Jimmy Agrelis, um pedreiro de 26 anos que fala com uma voz arrastada, como se estivesse anestesiado.

Delmas 30 era, até há 10 dias, um bairro residencial com casas de dois andares e canteiros de flores a adornar as entradas. Agora é um imenso cemitério de pedra, com centenas de habitantes sepultados debaixo dos escombros. À falta de outras informações, basta caminhar pelas ruas para confirmar os relatos dos habitantes: o cheiro dos corpos em putrefacção não engana. Os que sobreviveram apontam para cada ruína lembrando quem não escapou: «Ali vivia o dono da mercearia, morreu com toda a família...», explica Jimmy, mostrando o que resta da sua casa, ali mesmo ao lado. Quando a terra abanou, estava a dar os últimos retoques no lar que vinha construindo há anos. Órfão de pai e de mãe, mostra um documento atestando que cresceu em instituições de caridade. Nunca teve família, ia formar a sua este ano. O casamento estava marcado para Maio. Mas o terramoto arrasou todos os seus sonhos: a casa colapsou e, lá dentro, ficou a sua noiva.

Jimmy ainda não teve coragem para remexer na ruína, para resgatar alguns dos seus pertences, como fazem, na segunda-feira à tarde, todos os outros habitantes – apesar do perigo que isso representa, pois as estruturas que ainda subsistem de pé ameaçam ruir a qualquer instante. Jimmy tem receio de encontrar o corpo da sua Mauriline. Em lágrimas, abana a cabeça e diz não estar preparado para essa visão.

Aproveitando a última luz do dia – a cidade mantém-se sem electricidade -, os seus vizinhos trepam as estruturas, enfiam-se em buracos e, de vez em quando, saem com alguma coisa nas mãos: mantas, roupas e, nos casos mais afortunados, comida. É isso que a maioria busca. Porque em Delmas 30 há demasiada fome e nada, absolutamente nada, para comer.

Nos morros que rodeavam o bairro pernoitam agora 50 mil pessoas, em tendas improvisadas com pedaços de pano e de plástico. «Em sete dias, não veio aqui ninguém saber de nós», diz Christine Jean-Baptiste, uma avó de 53 anos que termina cada frase apontando para a barriga, suplicando comida. Em poucos minutos, já fala com uma multidão à sua volta, que grita cada vez mais alto, de forma exaltada. «Não há água, não há comida, os feridos morreram por aí, ninguém quer saber de nós, fomos abandonados!», refila mais alto que todos os outros Vilpigue Franz, um vendedor de 28 anos, líder de um comité popular organizado para impor a ordem no acampamento.

Sem comunicações, ignoram como o mundo de emocionou e mobilizou para os ajudar a superar uma das maiores catástrofes humanitárias de sempre. Os aviões militares não param de voar sobre as suas cabeças, com os ventres cheios de comida. Mas, uma semana depois do terramoto, esta gente continua na rua, sem abrigo, sem assistência médica, sem uma palavra de conforto – e de estômago vazio.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Leitura da semana


Nesta edição da Rolling Stone, a música é outra... um (invulgar) grito de revolta pelo fracasso de Copenhaga, denunciando também os 17 maiores poluidores a quem a luta contra o aquecimento global não interessa mesmo nada...

By preventing meaningful action in Copenhagen, the battle to kill the climate bill provided the world's biggest polluters with a lucrative victory — one that comes at the rest of the world's expense. "In the long term, the fossil-fuel industry is going to lose this war," says Kevin Knobloch, president of the Union of Concerned Scientists. "But in the short term, they are doing everything they can to delay the revolution. For them, what this fight is really about is buying precious time to maximize profits from carbon sources. It's really no more complicated than that."

domingo, 10 de janeiro de 2010

Tiger, by Annie Leibovitz



Annie Leibovitz fotografou Tiger Woods para a Vanity Fair poucos dias antes do escândalo sobre as suas aventuras sexuais o afastar (para sempre?) dos campos de golfe. Buzz Bissinger assina um texto revelador sobre a vida de uma estrela, num dos momentos mais negros da sua vida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Bagagem explosiva



Um pacato electricista esloveno viu-se envolvido num filme de terror pela polícia do seu próprio país quando, sem que soubesse, lhe colocaram um pacote de explosivos na bagagem. A ideia, sabemos agora, era a de realizar um «exercício real», espalhando explosivos pelas malas de viagem de vários passageiros, sem o seu conhecimento ou autorização, para testar a reacção dos cães pisteiros.

Tal como conta o El País, foram escondidos nove pacotes de RDX, um dos explosivos mais potentes e perigosos do mercado, na bagagem dos passeiros de um voo entre o pequeno aeroporto de Poprad-Tatry, a 340 quilómetros de Bratislava, e Dublin, na Irlanda. Provavelmente, ninguém viria a ter conhecimento deste «exercício» se tudo tivesse corrido bem… Acontece que os cães detectaram todos os pacotes mas os polícias esqueceram-se de recolher um deles – que seguiu para a Irlanda no porão do avião e, depois, para casa do emigrante esloveno, na zona norte de Dublin.

O electricista só soube o que tinha acontecido três dias depois, quando foi detido (!) pela polícia irlandesa e viu a sua casa invadida por uma brigada de desactivação de bombas - que, entretanto, já tinha fechado a rua com todo o aparato policial possível e imaginário. Por sorte, os 86 gramas de explosivos mantiveram-se estáveis no seu esconderijo. Mas este episódio deveria preocupar-nos tanto, ou mais, como as notícias de explosivos dissimulados nas cuecas de aspirantes a terroristas... É nas nossas cuecas, afinal, que a polícia está a meter a mão.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Carpe diem



Quantas vezes adiamos a felicidade? No próximo ano é que vai ser: vou ter aulas de piano, fazer aquela viagem, comprar aquela mota... Vivemos a uma velocidade alucinante e, ao que parece, adiamos tudo cada vez mais - até o prazer.
É por isso que todos devíamos meditar neste artigo do New York Times. Para quê guardar, por mais um dia que seja, aquela garrafa de vinho de 1961, à espera de um momento especial? Fazemos tudo errado: na verdade, o momento especial será aquele em que a abrirmos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Nunca é tarde


Aos 94 anos, Carmen Herrera é, segundo o New York Times, «the hot new thing» no panorama da pintura internacional. A artista, de origem cubana, pinta há mais de seis décadas mas só vendeu a sua primeira obra aos 89 anos... Hoje, tem já quadros seus em instituições como o MoMa ou a Tate e, esta semana, recebeu uma devida homenagem: o prémio de carreira do Centro de Arte Walker, de Minneapolis. Na cerimónia, o seu amigo Tony Bechara, pintor porto-riquenho, lembrou:

- Em Porto Rico temos um ditado: o autocarro sempre chegará para aqueles que esperam.

Ao que Carmen respondeu:

- Bom, Tony, eu estive 94 anos à espera!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

As melhores capas do ano

A escolha não é fácil... o que é bom sinal. Aqui ficam 20 das minhas capas favoritas do ano. A da Rolling Stone, na eleição de Obama, foi considerada a melhor de 2009 pela American Society of Magazine Editors. A da Q, com Lily Allen, foi a preferida dos britânicos.
Eu, se tivesse mesmo de escolher só uma, iria atirar uma moeda ao ar para decidir entre a capa da «minha» Egoísta, ilustrada pelo Rodrigo Saias, ou a do Jorge Colombo para a New Yorker (desenhada no iphone!), ou a da gripe suína, da New York... E vocês, qual escolheriam?























sábado, 12 de dezembro de 2009

Vida portuguesa, na Monocle



A Monocle elege, na sua última edição, as 20 pessoas no mundo que merecem conquistar, em 2010, «um palco maior». Entre os eleitos está uma portuguesa: Catarina Portas. O seu trabalho de recolha e pesquisa da vida quotidiana de outros tempos despertou a atenção da revista de culto britânica. O artigo não está disponível online mas a revista vende-se em Portugal, em bancas e livrarias mais selectas. Um bom pretexto para descobrir uma edição especial, de uma das melhores publicações da actualidade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Pausa para reflexão... e inspiração

Elizabeth Gilbert on nurturing creativity Video on TED.com

As palestras da TED são uma constante fonte de inspiração. Esta é uma das minhas preferidas de sempre, sobre génio, talento e criatividade. Com votos de um fim-de-semana... genial.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Até que (qualquer coisa) nos separe?



What would a better marriage look like? More happiness? Intimacy? Stability? Laughter? Fewer fights? A smoother partnership? More intriguing conversation? More excellent sex?
We all know what marriage is: a legal commitment between two people. But a good marriage?

Foi em busca de respostas para estas perguntas que a jornalista/escritora Elizabeth Weil escreveu o tema de capa da revista de domingo do New York Times, Married (happily) with issues. No início, tinha uma única certeza: a de que ela, tal como a maioria dos mortais, não se empenhava minimamente no sucesso da mais importante ligação afectiva da sua vida. E é preciso tão pouco para arruinar uma relação... Um texto corajoso, onde fala do seu próprio casamento - e dos desafios que enfrentou, para torná-lo melhor.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Um editorial histórico



Hoje, 56 jornais de 44 países dão o passo inédito de falar a uma só voz, através de um editorial comum. Falam sobre Copenhaga «porque a Humanidade enfrenta uma terrível emergência». A iniciativa foi do diário britânico The Guardian e o «nosso» Público juntou-se ao projecto. Um exemplo poderoso do que pode (e deve) ser hoje o chamado «jornalismo de causas»:

Superar as mudanças climáticas exigirá o triunfo do optimismo sobre o pessimismo, da visão a longo prazo sobre as vistas curtas, daquilo a que Abraham Lincoln chamou “os melhores anjos da nossa natureza”.

É dentro desse espírito que 56 jornais de todo o mundo se uniram sob este editorial. Se nós, com tão diferentes perspectivas nacionais e políticas, conseguimos concordar sobre o que deve ser feito, então certamente os nossos líderes também o conseguirão.

Os políticos em Copenhaga têm o poder de moldar a opinião da História sobre esta geração: uma geração que encontrou um desafio e esteve à altura dele, ou uma geração tão estúpida que viu a calamidade a chegar, mas não fez nada para a evitar. Imploramos-lhes que façam a escolha certa.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Leitura da semana



Na véspera do início da Cimeira de Copenhaga, a revista do El País é hoje dedicada às alterações climáticas. Durante oito meses, dois jornalistas percorreram 21 países, nos 5 continentes, para mostrar como estão os habitantes deste planeta a sofrer  - já, agora - as consequências do aquecimento global.
Así sufrimos el cambio climático, um ensaio fabuloso de Mathias Braschler e Monika Fischer, que nos contam histórias como a de Konusheva (na foto), que vive numa região da Rússia que, noutros tempos, era muito mais fria. A sua casa está alicerçada em gelo... a derreter.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Dear Meryl

Foto: Brigitte Lacombe/Vanity Fair

And in that moment, everything I knew to be true about myself up until then was gone. I was acting like another woman, yet I was more myself than ever before.


disse Meryl Streep, em As Pontes de Madison County, numa das suas interpretações únicas, sempre tão emotivas, enchendo o ecrã e o nosso coração. O poder transformador do amor, retratado nesse filme, é o mesmo que ela exerce sobre quem a vê actuar.
É uma das actrizes que mais admiro. Custa acreditar que tem 60 anos. Está linda, como sempre, numa sessão fabulosa, sem retoques, na Vanity Fair de Dezembro.

domingo, 29 de novembro de 2009

A primeira década do séc. XXI vista pela Newsweek

É um olhar americano, sem dúvida. Mas muito interessante. A Newsweek decidiu passar em revista a primeira década do século XXI, num grande dossier multimédia. Neste vídeo tenta explicar-se o mundo, de 2000 a 2010, em 7 minutos...

sábado, 28 de novembro de 2009

Um jornalista inflitrado na "tropa de elite"


Um jornalista do Folha de São Paulo candidatou-se, foi aceite e, durante sete meses, fez a dura recruta da Polícia Militar do Rio de Janeiro para escrever uma reportagem. Raphel Gomide dedicou mais de um ano à escrita de O Infiltrado - PM por Dentro e venceu o Grande Prémio de Jornalismo Lorenzo Natali*, atribuído pela Comissão Europeia.
«Eu queria entender de que maneira o curso de formação de soldados podia influenciar o comportamento no activo e pensei que a melhor forma de o fazer era passar por recruta e, assim, evitar os filtros que os soldados e oficiais teriam se os entrevistasse como jornalista», explicou esta semana à jornalista Isabel Marques da Silva, numa conversa que podem espreitar aqui, no site do Expresso.
«O que mais me chocou foi o facto de não só haver tolerância como estímulo à violência policial. Ouvi frases tais como: "Estou trocando tiro com vagabundo na favela e ele diz que perdeu e se rende? Perdeu nada! Vou-te matar, você vai morrer. Estava me dando tiros até agora, por isso vai morrer!". Havia um oficial que dizia "Rendeu, fuzilou!" e um outro instrutor que ensinava a encenar uma situação de legítima defesa, aconselhando o polícia que matou alguém pelas costas a colocar depois a arma na mão do suspeito.»


* A Comissão Europeia retirou o Grande Prémio NATALI e o Prémio África ao vencedor da edição do ano passado, Larrisse Houssou, do Benim. Esta decisão foi tomada com base numa denúncia de plágio apresentada por outro jornalista, que viria a ser confirmada pelo júri após um inquérito independente às alegações aduzidas. O jornalista brasileiro Raphael Gomide, segundo classificado em 2008, foi proclamado novo vencedor do Grande Prémio, por recomendação do júri.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O futuro, agora... na Esquire

E se as revistas falassem connosco? E mudassem de aspecto, se actualizassem os conteúdos? Não, não é ficção científica. A Esquire, que já tinha publicado os primeiros anúncios em movimento, volta a inovar recorrendo à Augmented Reality. Simplesmente fabuloso...