terça-feira, 29 de junho de 2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

General ao fundo


É Lady Gaga que tem as honras de capa da Rolling Stone deste mês. Mas é a história com uma chamada pequenina, no canto inferior esquerdo (Obama's General), que fez manchetes em todo o mundo, levando à demissão do general Stanley McChrystal, comandante das tropas norte-americanas no Afeganistão. A revista foi-nos habituando, ao longo dos anos, a combinar entrevistas e artigos de fundo sobre temas políticos com as últimas do rock n'roll. E esta reportagem do jornalista Michael Hastings, que se dedicou a ser a sombra deste general durante vários meses, figura já entre as melhores peças jornalísticas de sempre da imprensa americana.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago (1922-2010)



Morreu José Saramago. Amanhã chegarão às bancas edições especiais mas nos sites já se multiplicam artigos de fundo sobre o escritor português. Aqui deixo ligações para os belíssimos artigos do El País (destaque principal do site)

(...) el autor de "La balsa de piedra" fue poeta antes que novelista de éxito y antes que poeta, pobre. Unido el periodismo a esos otros tres factores (pobreza, poesía y novela) se entenderá la fusión entre preocupación social y exigencia estética que ha marcado la obra del único Premio Nobel de la lengua portuguesa hasta hoy (...)

e para o clássico obituário do New York Times, honra reservada às grandes figuras mundiais:

(...) His genius was remarkably versatile — he was at once a great comic and a writer of shocking earnestness and grim poignancy. It is hard to believe he will not survive.

domingo, 13 de junho de 2010

O síndrome da crueldade animal

Gandhi dizia que «a grandeza de uma nação pode ser medida pelo modo como os seus animais são tratados». Agora, segundo revelam vários estudos científicos recentes, também podemos dizer que a propensão de um homem para cometer crimes violentos se pode medir pela forma como este, em criança ou adolescente, maltratava os seus companheiros de quatro patas. A existência de um «síndrome da crueldade animal» é explorado neste artigo da revista de domingo do New York Times, onde se revela também que um animal abusado é, quase sempre, indicador de outros tipos de violência: nos EUA as autoridades começaram a pedir aos veterinários para reportarem casos graves à polícia pois concluíram que, em mais de 90% dos casos, nas casas em que um bicho é maltratado, também há abuso sexual de menores e/ou violência doméstica...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Manchete pela liberdade

Eis a primeira página de hoje do jornal italiano La Repubblica. Em branco. Ao centro, um post-it revela: «A lei-mordaça nega aos cidadãos o direito a serem informados».
Em editorial, o director Ezio Mauro explica as razões deste protesto, que se prendem com uma proposta de lei da maioria que governa o país, que restringe bastante os poderes judiciais e proibe a publicitação das investigações criminais em curso, nomeadamente no que diz respeito a informações/provas obtidas através de escutas telefónicas.
Se esta lei já estivesse em vigor, todos os escândalos envolvendo os políticos que governaram a Itália nos últimos anos nunca teriam chegado ao conhecimento público... a mais pequena alusão a uma investigação ou a um processo seria, pura e simplesmente, proibida. Viver num país assim seria o sonho de qualquer Mussolini... perdão..., Berlusconi, certo?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Douro, by The New York Times

O Porto e as paisagens do Douro merecem destaque no suplemento de viagens da edição dominical do The New York Times. Em Portugal Old, New and Undiscovered há um olhar diferente (e rendido) sobre o nosso Norte.

"(Oporto) It’s a city of bold, sudden architectural contrasts, in which two or three blocks collapse two or three centuries. On my first afternoon there, near the summit of the city, I traced the edges of Praça da Liberdade, marveling over the way its Beaux-Arts flourishes recall Paris at its prettiest. Thirty minutes later and less than a half mile down the sharply graded descent toward the river, I was staring at the rococo facade of the Igreja da Misericórdia, which dates to the 16th century. It put me in mind of Rome.
The church is on Rua das Flores, perhaps my favorite street in Oporto: slender, shaded, intimate, many of its low-slung buildings fronted with wrought iron or covered with painted tiles, which were probably garish at the start but have faded to a subtle, exquisite beauty. The Portuguese make lavish use of such tiles. The São Bento train station in Oporto has, in its main hall, enormous blue-and-white-tile murals of historic scenes. That station is near one end of Rua das Flores; near the other, on a corner just beyond the Igreja da Misericórdia, is a particularly beautiful house with a graceful medley of blue and ocher shades that mesmerized me.
You know that sensation you get — that traveler’s high — when the spot in which you’re standing feels so right that you have to will yourself to budge? In front of that blue and ocher house, on an early April day kissed by sun and a subtle breeze both, I felt that splendid lethargy, and knew there was only one way to complement it. I needed wine. It was past 3 p.m., after all."

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Parabéns, Mr. Pina


Já aqui falei várias vezes do João. Mas façam lá o favor de ouvir-me mais uma vez... Hoje, o New York Times publica um artigo sobre ele, apresentando-o assim:

João de Carvalho Pina, a young Portuguese photographer, has spent the past five years documenting the abuses of Operation Condor, a collusion among right-wing dictators in Latin America during the 1970s to eliminate their leftist opponents.

Neste artigo, Tracing the Shadows of Operation Condor, o João explica porque decidiu fotografar os locais onde milhares de pessoas foram mortas e torturadas (sítios aparentemente banais, como garagens, escritórios, estádios de futebol...) e porque acha importante revelar os rostos dos sobreviventes:

“My goal is to create a visual memory of what this period was, the places of the disappeared and the survivors and the families, and to show people that this actually happened,” Mr. Pina said. “There are hundreds of thousands of people affected by it.”
In a way, he is one of those affected. Two of Mr. Pina’s grandparents in Portugal, who were Communists, were jailed as subversives for many years by the dictatorship of António de Oliveira Salazar. That part of his family history led him to document the abuses of the Salazar regime. He took the photographs in “For Your Free Thinking,” published in Portugal in 2007, about former political prisoners. In many cases, he juxtaposed mug shots from the time with updated portraits of the subjects, in similar poses.“I was really feeling a kind of desperation,” he said. “The generation of my grandparents was disappearing, and there were no documents of it.”
Documenting the past, of course, is a paradox. The subjects are no longer around, the occurrences are over, actions exist in past time. So inevitably, Mr. Pina has to find a way to evoke vanished events. “My goal here was to bring viewers to where they can see there’s something strange in those pictures, and they don’t know why.”

sexta-feira, 14 de maio de 2010

«Garzón, amigo, o povo está contigo!»


O juiz Baltazar Garzón foi hoje suspenso de funções. Os grupos de extrema-direita venceram, conseguindo que o Supremo Tribunal o colocasse no banco dos réus, acusado de «prevaricação» por se ter considerado competente para investigar os crimes do regime de Franco.
O juiz, que ficou famoso pela emissão de uma ordem de prisão contra o ditador Augusto Pinochet e pela condução de grandes investigações contra a ETA, os GAL ou a Al-Qaeda, entende que os crimes praticados durante o franquismo se tratam de «crimes contra a Humanidade» e, logo, nunca prescreveram - nem mesmo à luz da lei da amnistia aprovada pelo governo espanhol em 1977.
O El País dedica uma página online ao caso, onde se pode ver a gravação vídeo do momento em que o super-juiz abandonou a Audiência Nacional. De lágrimas nos olhos, sendo abraçado por funcionários judiciais, e ouvindo um grupo de populares gritar: «Garzón, amigo, o povo está contigo!»

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A lista

Este artigo do Guardian, publicado ontem no site do jornal britânico, no preciso momento em que os liberais-democratas reuniam com os conservadores para negociarem uma coligação governamental, está a gerar alguma discussão: será uma invasão de privacidade ou justifica-se pelo interesse público da informação?

domingo, 2 de maio de 2010

Os lugares que somos

A revista de domingo do El País tem alguns dos meus cronistas preferidos, todos entre os melhores do mundo, nesta difícil arte de falar de temas quotidianos reais com as armas da ficção. Desde há muitos anos, os meus domingos são sempre mais especiais quando entram nele as palavras de Rosa Montero, Javier Cercas, Javier Marias, Juan José Millás ou Maruja Torres. Esta última, decana do jornalismo espanhol, vive em Beirute há vários anos. Ou melhor, vivia: Maruja vai regressar à sua Barcelona e conta hoje, em Os lugares que fomos, como é doloroso ver vazia a casa que foi sua durante tanto tempo. E abandonar, também, quem ela foi, naquela cidade.

Acaricio el vacío. Los amigos se han llevado los objetos que acumulé durante los últimos años, los jarros de cristal y los espejos comprados en Damasco, las lámparas adquiridas o heredadas de otros que también se marcharon de esta ciudad. Quedan los muebles que venían con el apartamento y que me apresuré a cubrir con tapices. Ahora también están desnudos, no son míos. Yo no pasé por aquí, puedo decirme.
Acaricio el vacío. Recuerdo quién fui aquí y qué fue este lugar que fue yo misma desde el primer momento en que pisé las baldosas hidráulicas y me vi circundada por ventanas y balcones. El aire entraba por todas partes, era la casa del aire y también de la fragilidad, la mejor casa que se podía tener en Beirut para habitar en lo precario. Cuando la ciudad se ponía bronca –ninguna tontería: con RPG al hombro–, no hace demasiado tiempo, la casa temblaba y yo me sentaba a hablar con los amigos por teléfono o a pintarme las uñas. Nada entretiene más a una –o a uno, puesto el caso–, en esos momentos en que no puede hacer nada por salir de su situación de conejo atrapado, que pintarse las uñas. Y acertar, claro.

Ustedes han vivido también, sin duda, esta sensación. La de abandonar un lugar en el que alcanzamos cierta plenitud, y comprender que la persona que ocupe nuestra plaza ni siquiera sabrá quiénes fuimos, ni apreciará la huella de tantas risas y lágrimas como goteamos… Cuando esa persona despierte, ¿lo hará por el zumbido del despertador, la voz de un locutor de radio? ¿O, como yo, dejará las contraventanas abiertas para que sea la luz, acompañada por el diálogo de los pájaros, lo que le abra el día, poco antes de que se reinicie al cotidiano apocalipsis de las excavadoras?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Portugal no New York Times

O New York Times publicou ontem um artigo sobre este cantinho à beira-mar plantado. Na secção de Economia. Já perceberam, certo? Só pode ser coisa má... e é. O título diz quase tudo: The Next Global Problem: Portugal.
Os analistas Peter Boone, da London School of Economics, e Smith Johnson, ex-director financeiro do FMI, dizem que Portugal só poderia ter as contas minimamente equilibradas com um crescimento do PIB na ordem dos 5,4% até 2012 - mas, na verdade, temos previsto um défice de 8,3%, só para este ano...
Para evitar a bancarrota, dizem, os governantes teriam de fazer cortes muito sérios. Nós podemos sentir que já estamos de cinto apertado mas eles dizem que não... e que, assim, não valerá de nada o esforço.

The Portuguese are not even discussing serious cuts (...) They are waiting and hoping that they may grow out of this mess.

Animador, não é?
Melhora ainda quando falam do apoio europeu e do FMI para o plano de recuperação da Grécia e concluem que, a Portugal, só resta esperar que tudo piore (!) para que a UE também nos venha «salvar». Mas isso, como já sentem os gregos nos seus bolsos, será um pesadelo para todos nós. E mesmo essa solução não é garantida:

Europe will eventually grow tired of bailing out its weaker countries.

E nós, quando é que nos fartamos disto?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Em viagem

(Angkor, Camboja)

 Há palavras que me fazem viajar num segundo. Como estas: Alepo, Djenné, Bandiagara, Jaisalmer, Turkana... Já em miúda adorava ver mapas e girar globos, espetando o dedo ao calhas em cima de terras com nomes misteriosos. Viajar, conhecer o mundo, sempre foi um sonho. Ter um bilhete de avião marcado, ou um plano de viagem delineado, nem que seja para daqui a muitos meses, anima mesmo os meus dias - até os piores dias. Fecho os olhos e vejo-me lá, onde tudo é novo para mim.
Já abdiquei de muitas coisas para poder viajar, e já estive em vários pontos da Europa, das Américas, da Ásia e de África, mas, mesmo assim, se tivesse pins a marcar os pontos do mundo que visitei, ficaria abaixo das três dezenas. Ainda tenho, verdadeiramente, um mundo à espera de ser explorado.
O Cáceres tinha um mapa cheio de pins, afixado na parede do seu gabinete de director da Visão. Era raro o país que não estava marcado... Um dia ganhei coragem para perguntar porque não eram todos da mesma cor: os vermelhos teriam um significado diferente dos brancos? Sim, os brancos assinalavam os locais onde ainda queria ir. Ele sabia, como poucos, que o sonho já é parte da viagem.
Recordei tudo isto lendo as sugestões do suplemento Ocho Léguas, do jornal El Mundo, num especial que me deixou a olhar para o meu mapa-mundo: afinal, destes 100 lugares para ver antes de morrer, quantos já conheci? Confesso: só um... Varanasi.
A minha lista talvez fosse diferente, pensei em seguida. Vou fazê-la, anuncio-vos desde já. E arranjarei depois muitos pins brancos, para marcar os destinos que me fazem sonhar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

40 dias na Route 66

Esta reportagem foi realizada durante as eleições norte-americanas mas as suas histórias são intemporais. Ruta 66, projecto multimédia publicado no site do jornal argentino Clarín, acaba de ganhar o prémio internacional Rei de Espanha, na categoria de jornalismo digital, depois de ter sido já distinguida, no ano passado, pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, organização presidida por Gabriel García Márquez. Vale mesmo a pena a viagem...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Leitura da semana

Todos os meses, cerca de sete mil africanos pagam centenas de euros a redes de imigração ilegal para entrar num destes camiões. Entrar é como quem diz... acabam por ter de se amontoar nas caixas abertas, tratados como quem os transporta os vê, de facto: são carga, apenas e só mais uma carga de gente desesperada, tentando fugir a uma vida miserável.
Saem do Níger e tentam chegar a Lampedusa, em Itália, via Líbia. A Europa é a miragem que os aguenta durante todos os duros meses que chegam a passar no deserto. Mas, para a maioria, nunca passará disso mesmo.
O El País publica hoje uma reportagem do jornalista Alfredo Blini, que fez a viagem até Dirkou, um oásis no meio do deserto do Níger, paragem obrigatória destes viajantes antes de cruzarem a fronteira para a Líbia. Há quem fique preso neste povoado, rodeado de areia escaldante a perder de vista, tendo de trabalhar para pagar o resto da viagem. Trabalhos duros, nas obras, e que mais se assemelham a escravidão: ganham 15 euros por mês. Com sorte, oito ou nove meses depois podem voltar a entrar no camião. Até à próxima paragem. Que bem pode ser forçada - pelos grupos armados que vivem dos roubos a estes desgraçados, que carregam pouco mais do que um sonho.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

And the winner is...

Foram hoje anunciados os vencedores do World Press Photo. O grande prémio foi atribuído ao fotógrafo italiano Pietro Masturzo, pelo seu trabalho em Teerão, durante as manifestações contra o regime iraniano. A foto vencedora «mostra o começo de algo, o início de uma grande história», justificou o presidente do júri.
É uma imagem com uma grande carga simbólica mas não seria a minha escolha. Os trabalhos de Walter Astrada, em Madagáscar (que venceu o Prémio Bayeux), de Marco Vernaschi, na Guiné Bissau, ou de Eugene Richards, com o seu fabuloso projecto War is Personal, contam histórias muito mais poderosas - e com pouca visibilidade na imprensa mundial.
Mais uma vez, não houve portugueses entres os vencedores. Outra grande injustiça: o trabalho de João Pina, sobre a violência nas favelas do Rio de Janeiro, publicado na New Yorker, no New York Times, no El País e na Stern (só para referir alguns...), merecia estar nesta galeria dos melhores entre os melhores.

Foto do Ano - Grande Prémio World Press Photo 2010
Pietro Masturzo, Itália, freelancer
Mulheres gritam nos telhados, durante as manifestações contra o regime de Ahmadinejad, no Irão

Primeiro Prémio - Spot News
Adam Fergusson, Austrália, VII para o New York Times
Uma mulher afegã é ajudada a fugir do local de um atentado, em Cabul

Primeiro Prémio - General News
Kent Klich, Suécia, freelancer
Uma casa em Tuzzah, na Faixa de Gaza

Primeiro Prémio - Spot News Stories
Waster Astrada, Argentina, France Press
Massacre em Madagáscar

Primeiro Prémio - General News Stories
Marco Vernachi, Itália, para o Pulitzer Center
Soldados da Guiné Bissau

Primeiro Prémio - Contemporary Issues Stories
Eugene Richards, EUA, Getty para o Sunday Times e Paris Match
War is Personal

Segundo Prémio - People in the News
David Guttenfelder, EUA, Associated Press
Soldados norte-americanos respondem a fogo taliban, no Afeganistão

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Haiti: um olhar português

Espreitem aqui o trabalho do fotógrafo Tiago Petinga, da Agência Lusa, no Haiti. Um dos melhores que já vi, a nível internacional.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ruínas que Falam - Em busca da alma haitiana

Dura pouco mais de 5 minutos... não percam nem um segundo deste emocionante testemunho dos enviados especiais da revista brasileira Veja a Port-au-Prince.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A minha segunda reportagem no Haiti


Também eu não consegui, desta vez, deixar todas as minhas emoções à margem do texto...
A pedido dos muitos que me escreveram, lamentando não ter conseguido comprar a Visão, aqui fica a última reportagem que escrevi em Port-au-Prince.

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O país dos órfãos

Nas ruas de Port-au-Prince vêem-se miúdos perdidos, caminhando de forma errante, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Há orfanatos sobrelotados e improvisados em tendas. Há bebés a desaparecerem dos hospitais, roubados por traficantes sem escrúpulos. Há pais em estado de choque, que mal conseguem balbuciar o nome dos filhos, sepultados nas escolas onde aprendiam a ler. São as vidas que o sismo levou – e não as réplicas que continuam a abalar o Haiti – o que mais faz estremecer os corações de quem escapou

Por Patrícia Fonseca, enviada especial

Joseph entra a medo no que resta da sua casa, avança com cuidado por entre os destroços e pára junto a uma mesa de madeira, coberta de pó. Agarra numa panela amolgada e suspira: «Ela estava aqui, a adiantar o jantar...» Ela era Angel Julmisse, tinha 34 anos e uma alegria que contagiava todos os que a conheciam. Trabalhava ao balcão de uma loja do centro de Port-au-Prince e, naquele 12 de Janeiro em que a terra tremeu, saíra mais cedo.

Faltavam oito minutos para as cinco da tarde. A filha de 11 anos, Widchine, ainda estava na escola. Os dois mais pequenos, Abdia Adriano, 4 anos, e Celena, de 3, brincavam no quintal da avó materna, duas ruas ao lado. Joseph lixava uma estante, na sua oficina de carpintaria. Em menos de um minuto, o sismo de 7.0 graus na escala de Richter arrasou a cidade – e a vida desta família.

O carpinteiro pôs um pé na rua instantes antes de a sua oficina desabar. Ficou caído no meio da estrada, sentindo o bairro chocalhar, ouvindo os gritos de uma cidade em pânico sobrepondo-se ao rugir enraivecido da terra. Assim que tudo parou, Joseph viu-se no meio de uma multidão de feridos e de mortos. Todas as casas à sua volta estavam no chão. A sua velha motorizada estava soterrada por pedregulhos. Desatou a correr para casa, a mais de cinco quilómetros de distância, temendo pelos seus. O sol já quase morria quando entrou na sua rua e, por momentos, sentiu alguma esperança. Havia casas de pé. A sua tinha desabado parcialmente. A parte da frente estava espalhada pelo chão, transformada num amontoado de tijolos e poeira. «Gritei por ela e pelos meus filhos, revirei tudo mas não os encontrava...» Até que viu uma mão. Angel ficou debaixo da parede da cozinha e Joseph não tinha forças para a arrancar de lá. Correu para casa da sogra, onde encontrou os filhos a salvo, e convenceu um vizinho a tentar ajudá-lo a resgatar Angel. Mas a força de dois homens não chegava para mover o pedaço de parede que a sepultava. A noite caiu e ele ficou ali, agarrado à sua mão sem vida, soluçando até amanhecer.

Foi o cunhado, Julmisse Vital, que o encontrou aninhado nos escombros, às primeiras horas da madrugada, em estado de choque. «Levei quase uma hora a convencê-lo a largar a minha irmã... Depois conseguimos tirá-la e fizemos um funeral simples, nesse mesmo dia.» Desde então, Joseph não dorme. Fica a velar pelos filhos, que agora vivem na casa da avó, uma casita pobre que miraculosamente resistiu ao abalo. As camas, porém, foram transferidas para o quintal - ninguém ousa ainda deitar-se sob outro tecto que não seja o céu.

O carinho que une este pai aos seus filhos é notório, é difícil vê-lo dar um passo sem a pequena Celena ao colo e Abdia Adriano pela mão. Mas ele quer dá-los para adopçãoe tentar emigrar. «Já fui a três orfanatos e dizem que não podem ajudar-me. Não sei que fazer... não tenho dinheiro, não tenho trabalho, não tenho comida para lhes dar.» Com 11 anos, Widchine percebe tudo o que pai vai dizendo. Enrola a ponta da saia com os dedos nervosos, os olhos pregados ao chão. E estremece quando Joseph me suplica que os leve comigo. «Se não pode tomar conta dos três, pelo menos fique com esta», diz, atirando Celena para os meus braços: «Leve-a, leve-a.»

Proibido adoptar
Sair com uma criança do Haiti é, neste momento, quase impossível. Pelo menos, de forma legal. Só com uma assinatura do primeiro-ministro, que chamou a si todo o controlo dos processos de adopção, na quarta-feira, 20. Além disso, só são admitidos pedidos para acelerar os processos que já tivessem sido iniciados antes do terramoto. Num país que terá agora perto de dois milhões de órfãos, o governo congelou todas as adopções depois das notícias de que estariam a ser levadas crianças para fora do país com papéis de origem duvidosa – ou sem quaisquer documentos, a bordo de pequenas avionetas privadas norte-americanas, que começaram a pousar no aeroporto da cidade menos de 24 horas depois do sismo. Segundo a Unicef, pelo menos 15 bebés foram levados de hospitais da cidade por redes de tráfico de crianças, que descobriram no meio da desgraça das famílias haitianas uma nova oportunidade para fazerem negócio. Dos orfanatos saíram também algumas centenas por intermédio de agências de adopção e congregações religiosas que, agora, estão a ser investigadas pela Unicef e pela polícia local.

É o caso da igreja de Brent Gambrell, um pastor presbiteriano de Nashville, nos EUA, que na sexta-feira, 22, estava no aeroporto de Port-au-Prince, ao lado de um avião privado, com uma menina ao colo. «Não estou a fazer nada ilegal e só quero ajudar estas crianças a terem uma família», diz, irritado. A pequena Julie, que terá quatro a cinco anos e esconde a cara, muito assustada, terá «pais novos» à sua espera, no aeroporto de Fort Laurderdale, na Flórida. Segundo Gambrell, Julie já estava em processo de pré-adopção pelo casal norte-americano antes do terramoto. «Estava num orfanato de Carrefour, onde morreram muitas crianças. Salvei de lá as que pude.» Não diz quantas. Mas acaba por contar que já fez a ligação entre Port-au-Prince e Fort Laurderdale «muitas vezes», nos últimos 10 dias, em aviões privados «de amigos ricos que quiseram ajudar». E como, e porquê, chegou o pastor ao Haiti? «Uma grande amiga minha [norte-americana] ligou-me desesperada porque a sua filha, de 22 anos, estava a fazer voluntariado no orfanato de Carrefour. Não havia telefones, ninguém tinha notícias, estaria morta, ferida? Deram-me um avião e eu vim. Aterrei aqui 12 horas depois do terramoto. E encontrei-a! No dia seguinte, já estava nos EUA.»

Com a filha da amiga, acaba por assumir, foram também as crianças que couberam no pequeno avião. E como mais ficaram para trás, ele voltou. Uma e outra vez. Agora está no aeroporto da capital do Haiti há dois dias, «preso por burocracias». Na embaixada dos Estados Unidos em Port-au-Prince, o processo de Júlia juntou-se ao de milhares de pedidos de vistos de emergência. Só na sexta-feira, 22, estavam mais de 400 crianças nas instalações norte-americanas, para serem identificadas antes de, eventualmente, poderem partir.

Um camião-berçário
Cento e sete dessas crianças estão ao cuidado do orfanato Maison de les Enfants de Dieu, uma instituição religiosa na zona mais pobre do bairro de Delmas. O director, Pierre Alexis, jura que já tinham processos de adopção iniciados antes de 12 de Janeiro. «Acontece que os trâmites podem levar até 24 meses e a maioria ainda estava numa fase inicial. Mas com esta desgraça, não há tempo para papeladas. Estamos a dormir na rua, sem comida, sem água. Estes meninos têm famílias à espera deles e devem poder partir, o mais depressa possível.»

A casa, que servia de abrigo a 135 crianças e 26 bebés, ruiu parcialmente. O muro que rodeia o orfanato está sulcado de rachas e sustém a custo um enorme portão de ferro. No quintal há tendas a servir de quartos, e uma sala de estar improvisada, com um sofá de palhinha cravado na terra e um toldo de plástico a fazer de tecto. Dezenas de miúdos correm descalços à volta da casa ou saltitam nos colchões espalhados pelo chão. Têm roupas gastas e sujas, com os seus nomes escritos a esferográfica azul: Leane, Guyto, Natasha. Mas nem sempre os nomes condizem. «Quantos anos tens, Eline?», pergunto a uma menina de oito ou nove anos, que se colou a mim como uma sombra, desde que cheguei. «Não...não Eline», diz com um sorriso envergonhado, estendendo o braço na minha direcção. Nas costas da sua mão pequenina, com as unhas pintadas de cor-de-rosa, estava a resposta certa: Seenia. A idade, não soube dizer.

Nas traseiras do orfanato, um velho camião voltou a ter utilidade. É na caixa de carga que está agora o berçário – sem berços, claro, apenas velhos cobertores embalando o sono de meninos dispostos em fila, muito juntinhos, com as testas brilhantes de suor. A maioria não tem fraldas, que por aqui escasseiam há muito. «Nos primeiros dias depois do terramoto, nem comida tinhamos. Água também não», diz Pierre. «Eles choravam com fome e nós chorávamos com eles», explica Marie, uma das amas, chegando com Berlando nos braços – um dos poucos bebés que o orfanato aceitou, nos últimos dias. «Tem oito meses e o pai e a mãe morreram no terramoto. A avó apareceu aqui, muito doente, suplicando-me que ficasse com ele. Foi um caso extremo. Só aceitei dez crianças até agora. Todos os dias recuso dez vezes mais», lamenta o director. «Não tenho onde os pôr. Nem o que lhes dar de comer.»

A história repete-se por todos os orfanatos da cidade. Na Village Espoir, apesar da palavra esperança que ostenta na fachada, as portas estão fechadas para novos órfãos. Daqui também não é provável que saiam crianças, a curto prazo. «A maioria dos meninos que vivem connosco têm pais – ou, pelo menos, um deles. São filhos de gente pobre, que não tem como os criar. Mas poucos são os que aceitam desistir deles para a adopção», explica a directora Marilude Nestor. O edifício imponente, de três andares, alberga 80 crianças – 25 são deficientes profundos. Mantém-se aparentemente intacto mas ninguém o utiliza. «Quando precisamos de alguma coisa, entramos a correr e saímos o mais depressa possível. A terra continua a tremer todos os dias, temos muito medo», diz Marilude, fazendo uma ousada visita guiada até ao segundo andar, onde ficam as salas de aula. A Village Espoir tem também escola, até ao ensino secundário. Numa das salas, um quadro de ardósia tem ainda escrita a última lição, explicando as utilidades do algodão. No topo direito, com letra infantil, permanece escrita a data fatídica: Mardi, 12 de Janvier de 2010.

Quando a terra tremeu, poucos foram os que conseguiram fugir para a rua. «Ficámos em pânico, alguns miúdos esconderam-se debaixo das mesas, eu corri para junto dos deficientes... seria impossível levar todos os que estão em cadeira de rodas para a rua, em tão poucos segundos. Foi Deus que nos valeu», acredita.

«Game Over»
A mesma sorte não tiveram milhares de crianças que estavam, nesse momento, em muitas escolas haitianas. Quase todas ruíram e dezenas soterraram todos os seus alunos, sem deixar sobreviventes. Kerina Materes, 32 anos, perdeu dois dos seus três filhos no liceu Gaston Bachelard, na cidade de Lêogane. Situada junto ao mar azul-turquesa, rodeada por palmeiras e praias com nomes convidando ao turismo, como Bikini Beach , Lêogane é hoje, contudo, um cenário nada digno de um postal. Esta foi a zona de epicentro do sismo, desfazendo mais de 90% das casas, e no ar ainda paira o cheiro a morte – cerca de 40 mil pessoas morreram aqui.

Kerina vende papaias e cana de açúcar no mercado local e vai fazendo negócio, sobretudo, junto das carrinhas coloridas, as tap-tap, que passam rumo ao interior rural da ilha, carregadas de gente em fuga. «O campo é pobre mas sempre há qualquer coisa para comer, aquilo que a terra dá...», explica Kerina. Ela preferia fugir para Santo Domingo, na vizinha República Dominicana, onde já trabalhou «em casas de família». Mas o bilhete de autocarro custa agora 100 dólares. E há muitas dificuldades para atravessar a fronteira.

Com o pouco dinheiro das suas poupanças fez questão de dar um funeral aos seus filhos. E aos seus pais. Sim, Kerina perdeu também o pai e a mãe. E a todos deu uma campa. «Não pude pagar aqueles caixões finos, os cascas de ovo, mas comprei umas caixas. E, pelo menos, sei onde eles estão», conta, lançando uma gargalhada despropositada. Há quem chore, quem esteja em choque e mal fale, há quem ria. Kerina ri muito. Recusa repetir os nomes dos seus mortos e diz que deixou o filho que sobreviveu, com 5 anos, em casa da avó paterna. «Não tenho cabeça.» Diz isto bamboleando o corpo e batendo palmas numa rua rasgada ao meio por uma fenda aberta pelo terramoto, passando pela fachada de uma casa de jogos em ruínas, onde ainda é possível ler, em letras garrafais, «Game Over». O jogo acabou também para esta mulher, que apenas aposta que não terá mais homens ou filhos. «Não volto a parir, nunca mais. Já chega de dor, já chega.»

Lêogane fica a duas horas de carro de Port-au-Prince e, pelo caminho, surge outra das zonas mais afectadas pelo terramoto: Carrefour. Este será, talvez, o local onde mais pais choram os seus filhos perdidos. Só na escola primária, que ruiu num segundo, morreram mais de 400 crianças que ali aprendiam o bê-á-bá. «Fui lá à procura dos meus filhos, estava tudo destruído... gritei, gritei, mas ninguém respondeu», conta Noel Jean-Marie, 43 anos, um reparador de pneus que fala sempre com a mão direita fechada sobre o peito, como que se isso pudesse servir de remendo para o seu coração. Niftale e Natalie tinham 7 e 8 anos. «Ontem [uma semana depois do terramoto], as máquinas começaram a limpar a zona da escola. Encheram quatro camiões de corpos. Tentei encontrar os meus meninos no meio de tudo aquilo mas não consegui». Terão acabado, junto com as outras crianças, enterradas em valas comuns de 20 por cinco metros, nos pântanos que rodeiam a capital.

A casa de Noel também se desfez «como se fosse açúcar». Dorme agora no estádio de futebol de Port-au-Prince, com a mulher, Kateline, e os dois filhos que lhe restam: Sege, 10 anos, e Natasha, 13. «Não sei o que vai ser da nossa vida», lamenta, ao lado das mulheres que ocuparam uma das bancadas do estádio, cozinhando o pouco que conseguiram arranjar nessa manhã, no mercado local. Em fogareiros de carvão, faz-se arroz com feijão e papas de farinha. Uma das panelas de ferro tem uma inscrição em jeito de prece: «Jesus». Só uma mulher, Maranata, tem um peixe à espera de ser frito. É uma espécie de carapau, de consistência e cheiro duvidoso. O que em Portugal seria uma meia-dose é aqui partilhado por nove pessoas.

Pedófilos ao ataque
Numa outra zona do estádio, uma adolescente tenta adormecer a sua filha de 6 meses, Farencia, à sombra de um lençol esburacado, preso por três paus. Magdala tem 17 anos e uma perna envolta em ligaduras, que mal a deixa andar. Já não tem leite no peito e, durante dias, mãe e filha não tinham o que comer. Agora foram «adoptadas» por um casal que conheceram no estádio, James e Lovely, de 36 anos, e a sua filha Fara, com 13, voltou a sorrir por causa daquela «boneca» nova, uma bebé rechonchuda como poucas no Haiti. James é segurança privado e vai conseguindo trabalhar. «Agora têm-me chamado para ajudar organizações humanitárias, mas não é todos os dias.» Com o pouco que ganha, vai conseguindo comprar alguma comida. Dois sacos, de onde espreitam bolachas e uma garrafa de água, estão escondidos dentro da tenda que os acolhe. «Aproveito para dormitar um pouco ao final do dia porque à noite tenho de ficar de vigia. Há muitos roubos, temos de estar atentos.» No hospital norte-americano montado no que resta da universidade de Quisqueya, já tinha encontrado André Lagan, um jovem de 18 anos que ali chegara com dois tiros na coxa. Tudo para lhe roubarem um saco de arroz.

James teme que a violência aumente com a fome e queixa-se da falta de apoio das organizações internacionais. Diz que só conseguiu encontrar, por uma única vez, uma distribuição de água, junto ao palácio presidencial. «Temos fome, muita fome», repetem os seus vizinhos, querendo meter-se na conversa, mas logo desatam a correr para a zona do túnel, onde uma equipa muito especial se prepara para entrar. São as tropas americanas, que pelo terceiro dia aqui vêm distribuir comida: uma dose de ração de combate (noodles com galinha) e uma garrafa de água pequena para cada pessoa. O que trazem não chega para todos. Talvez para um quarto, se tanto. E os mais fracos, de entre as 3 500 pessoas que ali montaram tenda, ficam sempre para trás. Alguns miúdos conseguem furar por baixo das pernas dos mais velhos, resistindo às pisadelas e aos pontapés, e Stevon, que tem 11 anos e adora o Cristiano Ronaldo, já é perito nessas fintas. «Hoje só não consegui trazer a água», lamenta. Caiu-lhe das mãos e logo um matulão ficou com ela. «Onde estão os teus pais?», pergunto, enquanto um bando de catraios nos começa a rodear, curiosos com a minha presença. «Não sei...», começa por dizer. Logo um mais velho me interpela, com ar agressivo, inquirindo o que quero dali. Explico que procuro crianças órfãs, que ali estejam sozinhas, e é o meu guia local que me salva de um safanão. «Daqui ninguém rouba mais miúdos!», grita, desaparecendo no meio da multidão, arrastando Stevon pelo braço.

Uma senhora que assiste à cena explica que há «estrangeiros esquisitos que andam a levar crianças», não se sabe para quê nem para onde. O governo e a Unicef estão preocupados com as adopções ilegais mas, sobretudo, com estas «outras» redes de tráfico de crianças – as da pedofilia, que andarão à caça no Haiti.

Em todos os campos de refugiados, e por toda a cidade, há bandos de miúdos sozinhos. Criam cumplicidades, como os do grupo do estádio, dormem juntos, roubam juntos. Mas também há os que não têm ninguém. Como o menino desesperado que avistei do carro ao abandonar Port-au-Prince, chorando em soluços, procurando um rosto conhecido no meio da multidão. Teria oito ou nove anos e fixou-me por instantes. «O que foi?», perguntei à distância, esperando que me conseguisse entender. Mas ele atravessou a rua, continuando a sua busca. O meu carro arrancou no sentido contrário e, mesmo sabendo que seria impossível cruzarmos a fronteira, o meu coração não parava de repetir: «Leva-o, leva-o.»