Tal como aqui referi na semana passada, nasceu hoje um novo jornal no Reino Unido, um «filho» do Independent, dirigido a leitores mais novos - e com o pouco original título de i... Esta é a primeira página do número um, que pode ser visto (e lido) página a página graças a este link de um diário concorrente.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Notícias do João Silva
O fotógrafo João Silva sobreviveu, foi já transportado para a Alemanha mas... perdeu parte das pernas. A confirmação foi dada hoje por Carlotta Gall, a jornalista do New York Times que acompanhava o fotógrafo de origem portuguesa no Afeganistão. Segundo Carlotta, o fotojornalista continuou a fotografar mesmo depois de ter sido ferido, ao pisar uma mina.
A notícia causou grande impacto em todo o mundo. No New York Times, é Dexter Filkins, o autor do fabuloso livro Guerra Sem Fim (Prémio Pulitzer, editado entre nós pela Casa das Letras, com prefácio de Cândida Pinto), que assina a triste notícia. Nicholas Kristof, um dos mais influentes colunistas do jornal, também escreve sobre este profissional de rara sensibilidade, várias vezes premiado no World Press Photo.
João Silva vive na África do Sul, é casado e tem dois filhos, de 5 e 7 anos.
Julian Assange e o Wikileaks
(Foto: C. Valiño/El País)
Julian Assange é o homem mais falado do momento. O fundador e editor do site Wikileaks é entrevistado pelo El País e pelo New York Times, publicações que dão amplo destaque à sua mais recente revelação - desta vez, mais de 300 mil documentos secretos sobre o verdadeiro número de vítimas mortais na guerra do Iraque e o recurso a técnicas de tortura.
No sábado, Assange estava em Londres. Foi lá que deu uma conferência de imprensa e falou com os jornalistas espanhóis e norte-americanos. Hoje já estará noutro país qualquer. Como conta o Times, ele sabe que é um alvo a abater e leva muito a sério a sua segurança: está sempre em movimento, não dorme nos mesmos locais duas noites seguidas, paga todas as despesas em dinheiro, muda de aparência frequentemente e só fala através de telemóveis com sistema de encriptação (e, mesmo assim, troca de número como quem troca de camisola...).
O site tornou-se mundialmente famoso (e inimigo nº 1 do Pentágono) depois de ter revelado, em Abril deste ano, o vídeo de uma operação militar norte-americana em que vários civis desarmados são abatidos (incluindo dois jornalistas da agência Reuters). Em Julho, milhares de documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão foram tornados públicos, embaraçando as relações entre os aliados e alguns 'países amigos', como o Paquistão. Agora revelaram-se (mais) verdades inconvenientes sobre a guerra do Iraque.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
i, o novo diário britânico
O Independent lança na próxima semana um novo jornal - e com um nome que nos faz lembrar qualquer coisa... A filosofia editorial do 'i' britânico é também semelhante ao projecto português, embora se vá publicar apenas de segunda a sexta-feira e por um preço muito abaixo dos outros diários (20 pence, contra 1 libra). O grupo de media explica este lançamento com a necessidade de conquistar novos leitores, na faixa dos 20 anos, e de reconquistar o público que lia os jornais ditos 'sérios' mas que o deixou de o fazer, por falta de tempo e/ou dinheiro.
O 'velhinho' Independent será também remodelado, esperando não ser 'canibalizado' pelo novo projecto.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Portugal, by Pravda
Absolutamente brutal a análise feita neste artigo sobre os políticos portugueses (e os parvos que os elegem...). Foi publicado no jornal russo Pravda. Para nossa reflexão...
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If it isn't Portugal, then it must be the European Union
Draconian measures were taken this week in Portugal by the "Socialist" (only in name) Government of José Sócrates, yet another right/centre right Government asking the Portuguese people to make sacrifices, a plea repeated time and again as this long-suffering, hard-working nation slips a few cogs further back into the quagmire of misery.
And it is not because they are Portuguese. Go to Luxembourg, which tops all the socio-economic indicators, and you will find that twelve per cent of the population is Portuguese, the people who built an Empire stretching across four Continents and who controlled the coastline from Ceuta on the Atlantic coast, round to the Cape of Good Hope, the Eastern coast of Africa on the Indian Ocean, the Arabian Sea, the Gulf of Persia, the Western coast of India and Sri Lanka.
This week, Prime Minister Socrates launched another wave of his austerity packages, cutting salaries and increasing VAT, more cosmetic measures taken in a climate of laboratory politics by haughty academics devoid of any contact with the real world, a mainstay in the Portuguese elitist political class in the PSD/PS see-saw of political mismanagement which has plagued the country since its Revolution in April 1974.
The aim? To reduce the deficit. Why? Because the EU says so. But is it just the EU?
No, it is not. The wonderful system that the European Union has allowed itself to get sucked into is one in which the Rating Agencies Fitch, Moody's and Standard and Poor's, based in the USA (where else?) virtually and physically control the fiscal, economic and social policies of EU member states through the attribution of credit ratings.
With friends like these agencies and Brussels, who needs enemies?
Let us be honest. The European Union is the result of a Pact forged by a frightened and trembling France, terrified of Germany after its troops marched into its territory three times in seventy years, taking Paris with ease not once, but twice and by a crafty Germany eager to reinvent itself after the nightmare years of Hitler. France got the agriculture, Germany got the markets for its industry.
And Portugal? Look at the brands of new cars (these seem to be immune to spending cuts) driven by private motorists to ferry around armies of "advisors" and guess which country they come from? No, they are not Peugeot or Citroen or Renault. They are Mercedes and BMWs. Top-of-the-range, of course.
Successive Governments formed by the main two parties, PSD (Social Democrats, right) and PS (Socialist, centre-right), have systematically sold Portugal's interests down the sewer, destroying its agriculture (Portuguese farmers are paid not to produce) and its industry (gone) and its fisheries (Spanish trawlers fish Portuguese waters), in return for what? What have the trade-offs they negotiated brought, except for the total annihilation of any possibility to create jobs and wealth on a sustainable basis?
Anibal Silva, now President but formerly Prime Minister for a decade between 1985 and 1995, the years when billions were pouring through his hands from the EU structural and development funds, is an excellent example of one of Portugal's better politicians. Elected fundamentally because he is held to be "serious" and "honest" (in the land of the blind, he who sees is King), as if that was a reason to elect a leader (which only in Portugal it is) and as if most of the rest were/are a bunch of useless leeches and parasites (which they are) he is the Father of the Public Deficit in Portugal and the champion of public spending.
His "concrete policy" was well conceived but as usual badly planned, the result of an inept, uncoordinated and at times non-existent Spatial Planning department, second, as usual, to vested interests which suck the country and its people dry. A huge part of the EU funds were channelled into building bridges and motorways to open up the country, facilitating internal transportation and constructing industrial parks in the interior cities to attract the population back from the coastline, where the vast majority resides.
The result was that the people now had the means to flee from the hinterland and reach the coastline even faster. The industrial parks were never filled and those industries which were set up have in many cases closed.
A large percentage of the EU taxpayers' money vaporised into phantom companies and schemes. Ferraris were bought. Hunting trips for wild boar were organized in Spain. Private homes were developed. And Anibal Silva's Government sat back and watched, in his first term, as the money was squandered. In his second term, Anibal Silva himself stood back and watched as his Government lost control. Then he tried desperately to distance himself from his own party.
And he is one of the better ones. After Anibal Silva came the well-meaning, well-intentioned and humanitarian António Guterres (PS), an excellent High Commissioner for Refugees and a perfect candidate for UN Secretary-General but a black hole in terms of financial mis-management. He was followed by the excellent diplomat but abominable Prime Minister José Barroso (PSD) (now President of the EU Commission) who created more problems with his discourse than he solved, passed the hot potato to Pedro Lopes (PSD), who basically never had a chance to govern, resulting in the two-term sinister horror or horrors, José Sócrates, a competent Minister of the Environment, but...
The austerity measures presented by this...gentleman... are the result of his own ineptitude as Prime Minister in the run-up to the world's latest crisis of capitalism (the one in which the world's leaders came up with three trillion dollars from one day to the next to bail out irresponsible bankers, while nothing was ever produced to pay decent pensions, healthcare programs or education projects).
And just like his predecessors, José Sócrates demonstrates an absence of emotional intelligence, allowing his ministers to practise laboratory politics and implement laboratory policies which are bound to be counter-productive.
Pravda.Ru interviewed 100 civil servants whose salaries are going to be reduced. Here are the results:
They are going to cut my salary by 5%, so I will work less (94%)
They are going to cut my salary by 5%, so I will do my best to retire early, change jobs or leave the country (5%)
I agree with the sacrifice (1%)
One per cent. As for increasing taxation, the knee-jerk reaction will be for the economy to shrink even more as people start to make symbolic reductions, which multiplied by Portugal's 10 million population, will affect jobs and send the economy further back into recession. The mentally advanced idiot who dreamed up these schemes has results on a piece of paper, where they will stay. True, the measures are a clear sign to the ratings agencies that the Portuguese Government is willing to take strong measures, but at the expense, as usual, of the Portuguese people.
As for the future, the Portuguese opinion polls forecast a return to the PSD, while the parties on the Left (Left Block and Portuguese Communist Party) fail to convince the electorate to vote for excellent ideas and concrete proposals. In the case of the PCP, it is higher salaries, greater production, the diversification of the economy and basically, respect for the people who have supported this nonsense for decades. An excellent product devoid of a successful sales department.
Only Portugal's elitist political class (PSD/PS) could be capable of punishing a people for daring to be independent. They have sold Portugal's interests down the drain, they have asked for sacrifices for decades, have produced nothing and continue to massacre their people with further punishments.
These traitors are leading more and more Portuguese to question whether they should have been assimilated by Spain centuries ago.
How sickening and how inviting that Portuguese saying "Those who do not feel well should move". Right, the hell away from Portugal, as everyone who can, is doing. What a pitiful comment on a wonderful country, a fantastic people, and a telling statement on an abominable political class from the centre, rightwards.
Timothy Bancroft-Hinchey
Pravda.Ru
domingo, 26 de setembro de 2010
Os 'novos' negativos de Capa
Continuam a dar que falar as mais de três mil fotografias de Robert Capa descobertas há três anos - os 127 rolos guardados na chamada «Mala Mexicana», entregues ao Centro Internacional de Fotografia de Nova Iorque (que agora começou a expô-las ao público). Hoje o tema volta a ser tratado no El País, em La guerra escondida en la maleta.
Estas imagens, quase todas da Guerra Civil espanhola, tinham sido entregues por Capa ao seu amigo Imre Weisz, em Paris, em 1939 ou 1940, quando abandonou a Europa, esperando que, assim, os rolos fossem salvos. Mas Weisz foi preso, pouco depois, e enviado para um campo de detenção na Argélia. Robert Capa morreu julgando que o seu trabalho tinha sido destruído durante a invasão nazi.
Inexplicavelmente, os negativos foram resgatados pelo general Aguilar González, diplomata em Marselha, que os levou para o México. Talvez o militar nem soubesse verdadeiramente o que tinha em mãos pois até à data da sua morte, em 1967, nunca revelou possuir esse «tesouro». Só em 1995 começaram a surgir rumores da sobrevivência das três maletas de Capa, onde se incluíam também negativos do trabalho de Gerda Taro (talvez a primeira mulher fotógrafa de guerra) e de David Seymour (Chim), com quem Capa viria a fundar a agência Magnum.
Um descendente do general, realizador de cinema, descobriu as malas e contactou diversas instituições internacionais, tentando que o seu conteúdo tivesse o melhor destino. Só depois de 12 anos de longas negociações, o património foi entregue à instituição nova-iorquina, fundada por Cornell Capa, irmão de Robert. E a todos nós.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Aos meus amigos
A crónica de Rosa Montero no El País, publicada no passado domingo:
La única patria que reconozco son mis amigos. Es una patria exigente. La amistad requiere atención, entrega, riego constante. Hay que invertir muchas horas en cultivarla. Ahora que soy mayor, sé con toda certidumbre que es el mejor destino que puedes dar a tu tiempo.
La única patria que reconozco son mis amigos. Es una patria exigente. La amistad requiere atención, entrega, riego constante. Hay que invertir muchas horas en cultivarla. Ahora que soy mayor, sé con toda certidumbre que es el mejor destino que puedes dar a tu tiempo.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
"A pobreza sai muito caro"
O escritor Mia Couto, sempre brilhante, sempre tocante, escreve no jornal moçambicano O País, partilhando as suas reflexões sobre os motins da semana passada, em Maputo:
"Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este parodoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutores e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direcção política do país. Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.
Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a “quem de direito”. Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam “uma resposta”. Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expectativa.
Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.
As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.
Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os “não eventos” da nossa história recente. Um deles é a chamada “guerra civil”. O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio. Entre esquecimentos e distorções, o fenómeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.
Vivemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos “bandos armados” esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas. Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os “maravilhosos” avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjectivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é “maravilhoso”, que o nosso país é “belo”. Mas todos os povos do mundo são “maravilhosos”, todos os países são “belos”. A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza."
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A paz, o pão, a liberdade a sério...
(As notícias pouco importam na praia de Telavive. Foto: Uriel Sinai/Time)
No dia em que as negociações para a paz entre Israel e a Palestina foram retomadas em Washington, vale a pena ler, na Time, este artigo: «Why israelis don't care about peace». Eu acrescentaria: «E os palestinianos idem aspas». Pelo menos para esta encenação da paz que lhes propõem.
Hoje, ao ver as imagens de Netanyahu e Abbas, os seus falsos sorrisos e apertos de mão, recordei as palavras de um vendedor de legumes no mercado de Gaza, que conheci em Janeiro do ano passado, no final de mais uma guerra com Israel. O cheiro das bombas de fósforo ainda pairava no ar e ele explicou-me, encostado a uma parede forrada de cartazes em honra dos mártires mortos na guerra, porque a paz que lhes oferecem pouco lhes diz... Transcrevo essa parte da minha reportagem:
"(...) O Hamas promove empenhadamente o ideal do martírio junto da juventude. Um cd musical à venda na cidade tem, na capa, vários combatentes em acção. O título é elucidativo: Centenas de noivas à tua espera.
Os cartazes honrando os mártires encontram-se nos locais mais inesperados. Como no mercado central da cidade, decorando a banca de legumes de Mari Abu Arab, 39 anos. «Nenhum é da minha família mas são todos meus irmãos», explica, depois de contar como os israelitas destruíram as suas culturas. «O que não foi espezinhado pelos tanques acabou queimado pelas bombas de fósforo.»
Mari necessitará de 5 anos para recuperar a sua quinta. Mas para isso seria preciso abrir terreno para a paz. «E o que é paz que nos oferecem? É só pararem de despejar bombas em cima de nós? Não! Nós precisamos é das fronteiras abertas, que o cerco termine de vez [as fronteiras de Gaza estão fechadas para o povo desde 2006].»
Já nas escolas das Nações Unidas, onde se apinham 6 000 pessoas que ficaram sem casa no último mês, tinha ouvido falar com raiva da noção que o mundo tem da paz que os palestinianos precisam. Um homem queixava-se, dizendo que dormia com 78 pessoas numa sala com pouco mais de 20 metros quadrados, que não tomavam banho há três semanas e que a comida que a ONU distribuía era pouca, uma lata de atum para cada três ou quatro, deixando todos com fome. Um outro interrompeu a conversa, aos gritos, a ira a incendiar-lhe o olhar: «Não quero saber da comida, nós não somos animais que podem ser fechados num curral e a quem se atira umas sacas de farinha para apaziguar as consciências do mundo. Estou farto disto, eu quero é trabalhar para dar comida à minha família, não quero esmolas. Falam tanto de paz, nós precisamos é de liberdade!»"
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Mourinho, by El País
Entrevista de Mourinho ao El País, com honras de capa na revista de domingo:
"Mi padre se casó con una profesora de portugués. Esa combinación me hizo amar el fútbol por una parte, pero al mismo tiempo la presencia de mi madre, su actividad, me influyó para tener un poco de control de esa pasión y mantener una motivación cultural y académica."
"Soy un portugués muy atípico, porque el portugués en general echa de menos a Portugal y yo no. No tengo saudade, quizá porque tengo una familia espectacular, porque estoy enamorado de lo que hago... No tengo saudade, pero tengo mucha pasión. Soy un portugués que no quiere volver, no quiero trabajar en ningún club portugués, no quiero vivir en Portugal, pero soy un portugués al que le gustaría hacer algo importante con mis capacidades."
sábado, 7 de agosto de 2010
Jolie, Angelina Jolie
A edição de Setembro já anda por aí a fazer furor (eu confesso, não tenho muita paciência para estas 'revelações' da Lady Gaga...) De qualquer forma, ainda estamos em Agosto, mês em que Angelina Jolie 'conquistou' a capa da Vanity Fair e este texto, de Rich Cohen, merece ser lido com atenção.
Muito bem escrito, o artigo leva-nos até Veneza, onde Jolie se encontra a gravar Salt, onde contracena com Johnny Depp. Um cenário especial para falar de uma «super-estrela», como explica o autor:
«I have long believed that celebrity, the way we worship and package and sell our pop stars, is what filled the need for gods that was once filled by the pictures in stained glass. Hollywood is post-Christian Venice, in other words, a pantheon of saints without the hassle and heartache of religion.»
Com este papel (de um operacional da CIA), originalmente pensado para Tom Cruise, a actriz chegou (ainda) mais perto do género de personagens que pretende encarnar. A oportunidade surgiu na sequência de um telefonema de Amy Pascal, vice-presidente da Sony Pictures:
“She asked if I wanted to play a Bond girl. I said, ‘No... but I would like to play Bond.’
Como escreve Cohen, esta mulher, «deusa dos tempos modernos e mãe de seis filhos», não está interessada em nada que possa ser rotulado de «normal». E não se contenta com o que a vida (ou a indústria do cinema) lhe possa trazer. Quer mais, muito mais. Bem haja.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Ficheiros secretos
São mais de 92 mil páginas de relatórios militares norte-americanos, classificados como secretos. Desde ontem, podem ser lidos na Internet por qualquer cidadão do mundo e, segundo o New York Times, dão-nos uma visão muito diferente da guerra no Afeganistão, sugerindo, por exemplo, a existência de «relações perigosas» entre os serviços secretos paquistaneses e os taliban. A informação foi publicada no site Wikileaks, que se dedica a expor segredos de todos os géneros, em nome do interesse público, mas foi disponibilizada a três publicações internacionais com algumas semanas de antecedência, para que pudessem estudar o material e decidir se o queriam tratar jornalisticamente: New York Times (que tem online uma página especial sobre o tema, The War Logs), Guardian ( idem, The War Logs) e Der Spiegel (ibidem, Die Afghanistan-Protokolle).
O diário americano publicou também uma nota, explicando como recebeu o material e porque decidiu analisá-lo (e publicá-lo). O Guardian publica ainda um depoimento do fundador do Wikileaks, explicando as razões desta revelação. A real dimensão das repercusões que a publicação destes documentos secretos terá no decurso da guerra ainda não são claras. Mas a Casa Branca já emitiu um comunicado condenando a fuga de informação: «Coloca em perigo a vida dos americanos e dos nossos aliados e ameaça a nossa segurança nacional».
domingo, 4 de julho de 2010
A entrevista de Sócrates ao El País
Os accionistas não devem ir contra a vontade do Estado, a União Europeia defende posições ultra-liberais que não fazem sentido e a Telefónica já devia saber o que a esperava... estas são, em resumo, as ideias fortes da entrevista a José Sócrates, publicada hoje no El País.
Aqui fica um excerto:
P. ¿Esperaba que Telefónica aumentaría la oferta el último día?
R. Lo que esperaba es que Telefónica hubiera negociado con la administración de PT, donde el Estado está representado. Negociar no es imponer.
P. No impusieron, presentaron una oferta para someterla a votación.
R. Ya sé que hicieron una oferta a los accionistas, lo que esperaba era una negociación con la administración. Porque cuando el Estado está en la asamblea general y se encuentra en la disyuntiva de lo tomas o lo dejas, el Estado tiene que responder. Y respondió: no quiero.
P. ¿Se siente solo en esta tormenta que ha provocado el veto del Estado portugués?
R. Algunos que critican no usan argumentos, sino insultos. Esas críticas tienen más de posición ideológica que de análisis racional. Calificar de colonialismo la inversión de Portugal en Brasil es ridículo. No me da miedo la soledad a la hora de tomar decisiones. Un primer ministro no puede dejarse acorralar. A ningún Gobierno le gusta que le doblen el brazo.
terça-feira, 29 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
General ao fundo
É Lady Gaga que tem as honras de capa da Rolling Stone deste mês. Mas é a história com uma chamada pequenina, no canto inferior esquerdo (Obama's General), que fez manchetes em todo o mundo, levando à demissão do general Stanley McChrystal, comandante das tropas norte-americanas no Afeganistão. A revista foi-nos habituando, ao longo dos anos, a combinar entrevistas e artigos de fundo sobre temas políticos com as últimas do rock n'roll. E esta reportagem do jornalista Michael Hastings, que se dedicou a ser a sombra deste general durante vários meses, figura já entre as melhores peças jornalísticas de sempre da imprensa americana.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago (1922-2010)

Morreu José Saramago. Amanhã chegarão às bancas edições especiais mas nos sites já se multiplicam artigos de fundo sobre o escritor português. Aqui deixo ligações para os belíssimos artigos do El País (destaque principal do site)
(...) el autor de "La balsa de piedra" fue poeta antes que novelista de éxito y antes que poeta, pobre. Unido el periodismo a esos otros tres factores (pobreza, poesía y novela) se entenderá la fusión entre preocupación social y exigencia estética que ha marcado la obra del único Premio Nobel de la lengua portuguesa hasta hoy (...)
e para o clássico obituário do New York Times, honra reservada às grandes figuras mundiais:
(...) His genius was remarkably versatile — he was at once a great comic and a writer of shocking earnestness and grim poignancy. It is hard to believe he will not survive.
domingo, 13 de junho de 2010
O síndrome da crueldade animal
Gandhi dizia que «a grandeza de uma nação pode ser medida pelo modo como os seus animais são tratados». Agora, segundo revelam vários estudos científicos recentes, também podemos dizer que a propensão de um homem para cometer crimes violentos se pode medir pela forma como este, em criança ou adolescente, maltratava os seus companheiros de quatro patas. A existência de um «síndrome da crueldade animal» é explorado neste artigo da revista de domingo do New York Times, onde se revela também que um animal abusado é, quase sempre, indicador de outros tipos de violência: nos EUA as autoridades começaram a pedir aos veterinários para reportarem casos graves à polícia pois concluíram que, em mais de 90% dos casos, nas casas em que um bicho é maltratado, também há abuso sexual de menores e/ou violência doméstica...
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Manchete pela liberdade
Eis a primeira página de hoje do jornal italiano La Repubblica. Em branco. Ao centro, um post-it revela: «A lei-mordaça nega aos cidadãos o direito a serem informados».
Em editorial, o director Ezio Mauro explica as razões deste protesto, que se prendem com uma proposta de lei da maioria que governa o país, que restringe bastante os poderes judiciais e proibe a publicitação das investigações criminais em curso, nomeadamente no que diz respeito a informações/provas obtidas através de escutas telefónicas.
Se esta lei já estivesse em vigor, todos os escândalos envolvendo os políticos que governaram a Itália nos últimos anos nunca teriam chegado ao conhecimento público... a mais pequena alusão a uma investigação ou a um processo seria, pura e simplesmente, proibida. Viver num país assim seria o sonho de qualquer Mussolini... perdão..., Berlusconi, certo?
segunda-feira, 31 de maio de 2010
O Douro, by The New York Times
O Porto e as paisagens do Douro merecem destaque no suplemento de viagens da edição dominical do The New York Times. Em Portugal Old, New and Undiscovered há um olhar diferente (e rendido) sobre o nosso Norte.
"(Oporto) It’s a city of bold, sudden architectural contrasts, in which two or three blocks collapse two or three centuries. On my first afternoon there, near the summit of the city, I traced the edges of Praça da Liberdade, marveling over the way its Beaux-Arts flourishes recall Paris at its prettiest. Thirty minutes later and less than a half mile down the sharply graded descent toward the river, I was staring at the rococo facade of the Igreja da Misericórdia, which dates to the 16th century. It put me in mind of Rome.
The church is on Rua das Flores, perhaps my favorite street in Oporto: slender, shaded, intimate, many of its low-slung buildings fronted with wrought iron or covered with painted tiles, which were probably garish at the start but have faded to a subtle, exquisite beauty. The Portuguese make lavish use of such tiles. The São Bento train station in Oporto has, in its main hall, enormous blue-and-white-tile murals of historic scenes. That station is near one end of Rua das Flores; near the other, on a corner just beyond the Igreja da Misericórdia, is a particularly beautiful house with a graceful medley of blue and ocher shades that mesmerized me.
You know that sensation you get — that traveler’s high — when the spot in which you’re standing feels so right that you have to will yourself to budge? In front of that blue and ocher house, on an early April day kissed by sun and a subtle breeze both, I felt that splendid lethargy, and knew there was only one way to complement it. I needed wine. It was past 3 p.m., after all."
"(Oporto) It’s a city of bold, sudden architectural contrasts, in which two or three blocks collapse two or three centuries. On my first afternoon there, near the summit of the city, I traced the edges of Praça da Liberdade, marveling over the way its Beaux-Arts flourishes recall Paris at its prettiest. Thirty minutes later and less than a half mile down the sharply graded descent toward the river, I was staring at the rococo facade of the Igreja da Misericórdia, which dates to the 16th century. It put me in mind of Rome.
The church is on Rua das Flores, perhaps my favorite street in Oporto: slender, shaded, intimate, many of its low-slung buildings fronted with wrought iron or covered with painted tiles, which were probably garish at the start but have faded to a subtle, exquisite beauty. The Portuguese make lavish use of such tiles. The São Bento train station in Oporto has, in its main hall, enormous blue-and-white-tile murals of historic scenes. That station is near one end of Rua das Flores; near the other, on a corner just beyond the Igreja da Misericórdia, is a particularly beautiful house with a graceful medley of blue and ocher shades that mesmerized me.
You know that sensation you get — that traveler’s high — when the spot in which you’re standing feels so right that you have to will yourself to budge? In front of that blue and ocher house, on an early April day kissed by sun and a subtle breeze both, I felt that splendid lethargy, and knew there was only one way to complement it. I needed wine. It was past 3 p.m., after all."
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Parabéns, Mr. Pina
Já aqui falei várias vezes do João. Mas façam lá o favor de ouvir-me mais uma vez... Hoje, o New York Times publica um artigo sobre ele, apresentando-o assim:
João de Carvalho Pina, a young Portuguese photographer, has spent the past five years documenting the abuses of Operation Condor, a collusion among right-wing dictators in Latin America during the 1970s to eliminate their leftist opponents.
Neste artigo, Tracing the Shadows of Operation Condor, o João explica porque decidiu fotografar os locais onde milhares de pessoas foram mortas e torturadas (sítios aparentemente banais, como garagens, escritórios, estádios de futebol...) e porque acha importante revelar os rostos dos sobreviventes:
“My goal is to create a visual memory of what this period was, the places of the disappeared and the survivors and the families, and to show people that this actually happened,” Mr. Pina said. “There are hundreds of thousands of people affected by it.”
In a way, he is one of those affected. Two of Mr. Pina’s grandparents in Portugal, who were Communists, were jailed as subversives for many years by the dictatorship of António de Oliveira Salazar. That part of his family history led him to document the abuses of the Salazar regime. He took the photographs in “For Your Free Thinking,” published in Portugal in 2007, about former political prisoners. In many cases, he juxtaposed mug shots from the time with updated portraits of the subjects, in similar poses.“I was really feeling a kind of desperation,” he said. “The generation of my grandparents was disappearing, and there were no documents of it.”
Documenting the past, of course, is a paradox. The subjects are no longer around, the occurrences are over, actions exist in past time. So inevitably, Mr. Pina has to find a way to evoke vanished events. “My goal here was to bring viewers to where they can see there’s something strange in those pictures, and they don’t know why.”
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