terça-feira, 25 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tragédia no Rio

 (Foto: Severino Silva/Agência O Dia)


"É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou"
Por Alexandra Lucas Coelho, em Teresópolis (Público)


"... não tinha luz, não tinha água...."

"... a estrada sumiu..."

".... eles morreram..."

Autocarro Rio de Janeiro-Teresópolis, ontem de manhã.
Silêncio, e gente ao telefone, a saber da gente.
Silêncio e uma mulher a soluçar.

 
Avançamos para norte e depois para nordeste. Teresópolis fica entre Petrópolis e Nova Friburgo, a meio da região serrana que de terça para quarta-feira foi devastada pelas chuvas. A grande subida começa uma hora depois da partida. É a formidável Serra dos Órgãos, com morros que metem medo, de tão altos e nus. Cá em baixo a vegetação é luxuriante. Hortênsias azuis vizinhas de bananeiras. Atlântico tropical.

Mas que estamos bem na serra vê-se pelos anúncios de queijos.
É paisagem de veraneio e férias. Muitos cariocas têm aqui casa, ou alugam pousadas. Há chalés, mansões, campos de cavalos. Mas também há encostas favelizadas, com barracos de tijolo. Ricos e pobres.
O autocarro contorna as curvas devagar, o abismo cresce, primeiros sinais de encostas caídas, uma ambulância de resgate. Mais um inquietante horizonte de morros. "Grota do Inferno" anuncia uma placa. O céu está cai-não-cai, cinza, chumbo.
Subimos e subimos. Aparece o pico conhecido como Dedo de Deus, uma rocha em forma de dedo gigante, célebre entre alpinistas. À esquerda uma cachoeira transbordante e o autocarro entra em Teresópolis. Nenhum vestígio de destruição na cidade. Mas vestígios da calamidade, sim: raparigas com faixas a pedir comida e roupa, engarrafamentos com carros que vieram trazer ajuda, jipes da Defesa Civil e carros de Bombeiros.
Na prefeitura, Sílvia e Mara actualizam o número de vítimas só em Teresópolis: 158 mortos [que ao começo da noite já serão 208], 1300 desalojados, 1200 desabrigados. "Desalojados são os que ficaram sem casa, mas estão a ficar com parentes. Desabrigados são os que não tinham para onde ir."
Estão no polidesportivo Pedrão, a duas ruas daqui. Carros e carrinhas a descarregarem sacos e caixas. "Roupa! Roupa! Roupa!" Os sacos passam de mão em mão. Em horas, a sociedade civil carioca mobilizou-se. E passando a entrada é difícil não ter um choque. Porque lá dentro é um gigantesco acampamento, com velhos e crianças enrolados em mantas. Toda a pista está coberta por colchões, gente e trouxas enroladas. E as bancadas a toda a volta repletas de sacos.
Por exemplo Robson, este mulatão de tronco nu, ao lado de uma menina. Está aqui com dez pessoas da família, e cinco são crianças. "A terra caiu e derrubou tudo, casa, carro, não sobrou nada", conta. Foi a meio da noite, de terça para quarta, quando uma tromba de água rebentou sobre os morros. "Eram três da manhã, estávamos em casa a dormir. Quando caiu a primeira terra, a gente conseguiu fugir. Escutámos na hora em que a água bateu. Começou a cair árvore, tudo começou a fazer barulho."
Mas Robson fala sereníssimo. "Não precisamos de nada. Tem água, tem comida, tem roupa. Está tudo bem." Só falta a mãe. "Ficou isolada, num lugar onde agora ninguém entra nem sai, no bairro de Caleme."
Caleme é uma freguesia metida no mato, junto ao morro. Para lá chegar faz falta um táxi que não se incomode com a lama e sobretudo a ajuda preciosa de Jorge Maravilha, um camaraman da prefeitura que chama a toda a gente Maravilha e toma a peito a missão de fazer chegar o PÚBLICO lá ao fundo.

O taxista avança entre encostas de barracos que dão lugar a sebes luxuosas, até que à nossa frente aparece um morro com uma grande lasca de terra arrancada. Uma das que desabou, engolindo casas, carros, postes e estradas. "Nossa Senhora, vai ter de desabitar tudo aquilo!", exclama Maravilha e, apontando as casas na encosta. "Vamos torcer para que não chova mais." Mas já está a chover. "Ontem filmei cadáveres em cima de árvore como bola de Natal." O taxista reforça: "Sou da terra e nunca vi nada assim."
A pé na enxurrada

Passamos um clube de golfe e um clube hípico, contornando uma escavadora coberta de lama. Tufos de hortênsias, lá em cima helicópteros. Uma placa anunciando Condomínio Roseiral. Casas luxuosas. "Superluxuosas", emenda Maravilha. "Cinematográficas."
E agora a rua acabou. O táxi, que já chegou aqui porque é um 4x4, tem mesmo de parar. Imaginem um piso de paralelepípedo. Agora imaginem esse piso destruído por uma bomba. É o que temos à frente dos olhos. Caminhamos sobre montanhas de pedras, misturadas com troncos.Será uma longa caminhada. Lama, água barrenta, árvores arrancadas ao longo das bermas, postes de electricidade caídos à nossa frente. E um carreiro de gente indo e vindo, de chinelas ou de galochas, transpirada, enlameada. "Lá em cima vão com calma, porque o clima "tá foda", avisa um conhecido de Maravilha, que vai voltar à cidade. "Tem corpos no chão."
Continua a chover. A mulata Rosa vai de chapéu aberto e chinela ao nosso lado. "Vou ver da minha irmã, das minhas sobrinhas. Fui até à delegacia [onde estão os nomes dos mortos], mas os nomes delas não estavam lá." Milhares de pessoas circulam assim, em busca de parentes. Há centenas de desaparecidos. "É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou. E os telefones não estão funcionando."
Aqui choveu em uma noite o que devia ter chovido num mês.
Rosa pára de repente, porque o caminho está interrompido por uma enxurrada. Para continuar, temos de meter pela sebe de uma grande propriedade. O dono está a deixar toda a gente passar pelo caminho interno em direcção ao morro, explicam os guardas Ivan e Cláudio, que vão orientando quem passa. "Aqui ao lado morreu muita gente", diz Ivan, apontando a encosta. "Tem ricos e pobres, mas 90 por cento dos mortos são os menos favorecidos." Porque não têm quem alugue um helicóptero - como fez por exemplo um músico da banda Kid Abelha para resgatar os filhos, aqui - e sobretudo porque moram em casas piores, e em lugares mais arriscados.
"É um absurdo a prefeitura permitir que construam nessas áreas", indigna-se Ivan. Maravilha tenta relativizar: "Ah, não tem como prever. O morro desceu todo." Ivan insiste: "O que é que o prefeito fez para proteger o pessoal que mora aqui?"
Marco António Roit, dono da propriedade, aparece a caminhar no relvado aparadíssimo. Parece uma propriedade inglesa, mas com os trópicos nas costas. "Isto era de uma família de grandes industriais e fazendeiros, os Guinle, donos do Copacabana Palace", explica. Tem 47 anos, é empresário de construção civil. Na noite de terça para quarta estava em São Paulo. Só conseguiu chegar aqui na tarde de quarta. "Abri logo a passagem porque a rua estava destruída. Para que a comunidade pudesse passar, ambulância, defesa civil... As pessoas estavam desesperadas. O pessoal da propriedade recolheu três corpos e colocou-os ali no gramado."
Atravessamos o atalho dentro da propriedade até ser possível voltar à ex-estrada. Passamos por baixo de um poste de electricidade. Trepamos a raízes arrancadas. "Tiraram mais dois corpos agora", diz um rapaz que vai em direcção contrária. "Era um casal dormindo junto." Como em Pompeia.
Continua a chover, mas a maior parte das pessoas caminham sem chapéu. ""Tá "brabo" ali..." alerta um homem, apontando para a frente. Agora o morro meio desabado está mesmo à nossa frente, e a estrada é uma torrente de água. As pessoas estão a passar por uma longa tábua suspensa. "Não olha para baixo, olha em frente", vai avisando Maravilha, que quer ajudar toda a gente.
O bebé no muro

À direita, uma casa destruída, com o rio de barro atravessando as salas, arrastando árvores. Gente exausta, encharcada, de luvas. E à esquerda gente a chorar, saindo de um portão. É a entrada de uma casa com um relvado. Um grupo rodeia um impermeável preto. Quando nos aproximamos, vemos formas humanas debaixo do impermeável, pés a saírem, embrulhados em mantas.
"Aqui estão três adultos e um bebé", diz o cabo Rodrigo Melo, da Polícia Militar. É daqui mesmo, da freguesia. Conhecia dois mortos pelo nome, o tal casal: "Liliane e Robson. E o bebé tinha dois meses. Encontrámo-lo agora, há uns 15 minutos." Não era filho do casal. "É de uma família ali", aponta o cabo. "Foi tirado daquele muro. Veio arrastado e parou ali no muro." Baixa a voz. "Estava prensado." Fica em silêncio. Ficamos todos em silêncio.
"Olhe, a tia do neném está chegando ali...", diz o cabo Rodrigo. As pessoas juntam-se todas em volta de uma rapariga. Um dos voluntários levanta o plástico preto. A rapariga debruça-se. Confirma que é o sobrinho. As pessoas desfazem a roda. Ela afasta-se. O plástico fica afastado, deixando ver uma trouxinha embrulhada num lençol branco. "Chamava-se Iuri", diz um dos voluntários.
Homens e rapazes cheios de lama. "O dono desta casa liberou para a gente botar aqui os corpos." Todos estavam aqui na noite de terça para quarta. "Escutei como se fosse um estalo muito forte", conta o cabo Rodrigo. "Era a cabeça-de-água que estourou na pedra. Eram umas três da manhã. Aí saímos de casa e começaram os gritos. As pessoas queriam descer para ajudar, mas deparavam-se com a força do rio. E as pessoas a gritarem por socorro, a serem arrastadas, jogadas contra o muro, a tentarem subir..."

Clayton, 24 anos, estudante de Direito da universidade de Teresópolis, "nascido e criado aqui", não dorme desde que começou a ajudar. "Retirei corpos da lama, fui buscar água, ajudei na condução, agora estou tomando conta dos corpos. Todos os que estão ajudando são moradores do bairro. Solidariedade nunca é de mais. O bairro inteiro está sem dormir. Não tem luz, não tem telefone, a água acabou. Eu moro ali naquela rua destruída pelo rio, mas a minha casa não corre perigo. Acho eu." Contou 22 corpos só neste lugar, desde ontem.

Subindo à rua destruída, Wanderleia, 42 anos olha para o rio, em catadupa, cercado de raízes e árvores. "Morreu uma senhora ali, que a água levou", aponta ela. "E aqui mais dois." Não ouviu o estalo ou estrondo de que muitos falam. Acordou a meio da noite com "um cheiro muito forte de raízes, de mato", e a cunhada a gritar. "Peguei nas crianças e saímos correndo."
De regresso, caminhando, cruzamo-nos com dezenas de voluntários com sacos de mantimentos e roupa, em direcção ao morro. Uma negra meio surda brada no meio da rua, ou do que foi a rua. "TUDO TEM UM TEMPO!" Chama-se Sueli Machado e tem 62 anos. Primeiro dormiu lá no polidesportivo, depois mudou-se para um abrigo da Igreja Metodista. "Perdi a parte da frente da minha casa, o meu carro foi embora no rio, e o rio virou um mar de areia. Agora vim ver. Preciso de tirar as minhas coisas." E já ao longe grita: "PERDI O ANEL MAS FICARAM OS DEDOS. E A FÉ EM DEUS!"
No autocarro para o Rio, um homem completamente enlameado abraça um menino de galochas totalmente cobertas de lama. "Descemos pelo mato 50 minutos, a abrir caminho com uma faca, e depois caminhámos três horas", conta. Deixaram tudo para trás. Soltaram os animais. É a casa de férias, num condomínio. "Morreu muita gente lá e a estrada acabou. Ficou totalmente destruída."

Ao sair do autocarro, com a sua roupa suja, e os seus sapatos empapados de lama, o homem estende-nos o cartão, feliz de ter chegado à rodoviária. Chama-se Sergio Bruni. É o vice-reitor da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Haiti, um ano depois

(Haiti, Janeiro de 2010/Patrícia Fonseca)

Foi há um ano. Sete graus na escala de Ritcher. 230 mil mortos.
Na tradição vodu, tão importante no Haiti, acredita-se que a alma dos mortos mergulha nas profundezas do mar e aí permanece durante um ano e um dia. Ou seja, as grandes cerimónias fúnebres recordando os mortos não acontecerão hoje mas sim amanhã. Milhares de famílias seguirão os sacerdotes vodu, rezando pelas almas que se libertarão das águas, pedindo para que reencarnem pacificamente nas árvores. Os haitianos dizem que, se ouvirmos atentamente quando o vento sopra, lá estarão, em sussurro, as vozes desses espíritos, tentando comunicar com o mundo dos vivos.
Eu não os ouço. Mas ainda ecoam em mim os lamentos dos que sobreviveram.
Tenho pena de não ter podido voltar a Port-au-Prince. Hoje gostaria de estar lá e de poder encontrar alguma explicação para o facto de só terem ainda retirado 5% do entulho que soterrou a cidade. De perceber porque raio não consegue Bill Clinton coordenar as mais de 4000 ONG's no terreno, a bem da população. Porque ainda existem mais de um milhão de pessoas em tendas, nas ruas, sem água nem saneamento, sem comida nem esperança.
As respostas não são fáceis de encontrar, eu sei. Mas algumas estão aqui, neste dossier do New York Times, e aqui, nas reportagens da enviada especial do El País. Ou neste artigo do Paulo Moura, no Público de hoje, As pedras ainda não saíram de cima de nós.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Leitura da semana


A primeira edição do ano da Time tem Aung San Suu Kyi brilhando na famosa moldura vermelha da publicação norte-americana. A «primeira-dama da liberdade», como poeticamente lhe chama a jornalista Hannah Beech, fala, numa entrevista exclusiva, sobre a sua frágil liberdade e os sonhos de democracia para o seu povo.
A fotografia de capa é do famoso retratista Platon (vencedor do World Press Photo em 2007 com um retrato de Vladimir Putin), que, pouco habituado ao suor e sangue do fotojornalismo, partilha neste vídeo as dificuldades sentidas para fotografar Suu Kyi em Rangoon, fugindo à polícia militar birmanesa.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ho-ho-ho!


A todos os leitores do Blogkiosk... um Natal 5 estrelas e um 2011 cheio de boas notícias!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Larry King - o último dia do reinado


O anúncio foi feito há uns meses mas o dia - o último dia de "Larry King Live" - chega hoje. Depois de 25 anos no ar, e cumpridas mais de 50 mil entrevistas, o «mestre» arruma os seus suspensórios. Quem se sentará hoje na cadeira oposta à sua? A informação permanece no segredo dos deuses... mas é certo que não será apenas uma pessoa.
Hoje, em jeito de homenagem, vale a pena dedicar uns minutos à leitura do artigo de Kathleen Gomes, correspondente do Público nos EUA:

«Larry King sabe o que perguntaria a Deus se ele fosse ao seu programa na CNN. "Tem um filho?"
Quando se entrevistou tanta gente como Larry King, sobra muito pouco por fazer. King também preparou perguntas para Osama bin Laden, pelo sim, pelo não. Não começaria pelos atentados de 11 de Setembro, porque isso poria Bin Laden "na defensiva". Perguntar-lhe-ia "por que deixou uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita para viver em lugares como o Afeganistão".
Se Deus ou Bin Laden descessem à terra, talvez só aceitassem ser entrevistados por Larry King. O seu programa, no ar há 25 anos, foi recentemente reconhecido pelo Livro dos Recordes Mundiais do Guinness como o mais sério caso de longevidade televisiva.
Em Junho, King entrevistou Lady Gaga. Dias depois, o comediante americano Bill Maher, que foi o convidado de Larry King, notou: "Pensei: "Quem mais é que consegue trazer a Lady Gaga ao seu programa? Nunca vi Lady Gaga em mais lado nenhum. Vi-a usar um aquário na cabeça. Mas nunca a vi a falar realmente com outro ser humano. Não fazia ideia de como ela era antes de falar contigo
."»
(Continuar a ler aqui.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

TIME - Personalidade do Ano


E o vencedor é... não, não é Julian Assange e o seu Wikileaks. A Personalidade do Ano eleita pela revista TIME é Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, por ter criado uma nova forma de relacionamento social e de partiha de informações, usada por mais de 550 milhões de pessoas, mudando a forma como vivemos.
Entre os finalistas, além de Assange, estavam os mineiros do Chile, Hamid Karzai e o Tea Party. Não contesto o vencedor, indiscutivelmente um dos génios da nossa era, mas... porquê este ano? Porque não no ano passado, ou há dois anos? Fica a ideia de que a revista não quis alimentar polémicas - nem arricar-se a perder os seus leitores patriotas, que vêem Assange como inimigo da América...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Millenium BCP exposto no Wikileaks

A investigação é do El País e tem honras de destaque no site do jornal, neste domingo à noite: entre os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks há um em que o presidente do Millenium BCP, Carlos Santos Ferreira, propõe aos Estados Unidos fazer recolha de informações sobre o Irão a troco de poder fazer negócios naquele país... e tudo com o conhecimento do governo português. Um artigo bombástico de Francesc Relea, correspondente do diário espanhol em Lisboa, que recorda até os negócios antigos de Santos Ferreira com o Irão, nos anos 80, quando foi presidente da Fundição de Oeiras - e de como a venda de armas àquele país islâmico poderá ter estado na origem da morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A capa da semana

Mais uma capa feliz da Time, numa edição que nos oferece grandes textos para ler. Para começar, uma entrevista realizada via skype, antes da detenção de Julian Assange. Depois, vale a pena espreitar estes dois artigos, disponíveis online: WikiLeaks' War on Secrecy: Truth's Consequences e Why WikiLeaks Is Winning Its Info War. Boas leituras!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um Nobel também chora


(Foto: DANIEL MORDZINSKI / El País)

Ele, que não é de lágrima fácil, emocionou-se - e emocionou quem o ouvia - durante o discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura (que pode ser lido, na íntegra, aqui). Atrás da primeira lágrima de Vargas Llosa, caiu num pranto a sua mulher, Patrícia, a sua agente, Carmen Balcells, o seu traduto sueco... e ao lado de todos esteve o jornalista do El País, Juan Cruz, que acompanhou «a semana sueca» do escritor e hoje publica uma crónica sobre este momento especial.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

«Não matem o mensageiro»


Julian Assange, o rosto por trás do site Wikileaks, assina um texto a publicar na edição de amanhã, dia 8, no jornal The Australian, com um título revelador: Não matem o mensageiro por revelar verdades inconvenientes. Assange pede ao público «protecção» para o Wikileaks, defendendo que «as sociedades democráticas precisam de meios de comunicação social fortes», que «mantenham os governos honestos».
E defende-se das acusações de «terrorismo informativo»:

«Every time WikiLeaks publishes the truth about abuses committed by US agencies, [there's] a chorus with the State Department: "You'll risk lives! National security! You'll endanger troops!" Then they say there is nothing of importance in what WikiLeaks publishes. It can't be both. Which is it?
It is neither.
US Secretary of Defence Robert Gates admitted in a letter to the US congress that no sensitive intelligence sources or methods had been compromised by the Afghan war logs disclosure. The Pentagon stated there was no evidence the WikiLeaks reports had led to anyone being harmed in Afghanistan. NATO in Kabul told CNN it couldn't find a single person who needed protecting.
But our publications have been far from unimportant. The US diplomatic cables reveal some startling facts:
► The US asked its diplomats to steal personal human material and information from UN officials and human rights groups, including DNA, fingerprints, iris scans, credit card numbers, internet passwords and ID photos, in violation of international treaties. Presumably Australian UN diplomats may be targeted, too.
► King Abdullah of Saudi Arabia asked the US to attack Iran.
► Officials in Jordan and Bahrain want Iran's nuclear program stopped by any means available.
► Britain's Iraq inquiry was fixed to protect "US interests".
► Sweden is a covert member of NATO and US intelligence sharing is kept from parliament.
► The US is playing hardball to get other countries to take freed detainees from Guantanamo Bay. Barack Obama agreed to meet the Slovenian President only if Slovenia took a prisoner. Our Pacific neighbour Kiribati was offered millions of dollars to accept detainees.

In its landmark ruling in the Pentagon Papers case, the US Supreme Court said "only a free and unrestrained press can effectively expose deception in government". The swirling storm around WikiLeaks today reinforces the need to defend the right of all media to reveal the truth.»

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Grandes histórias

(Foto: João Pina/ Kameraphoto para El País)

Imperdível este artigo do El País sobre o milionário Douglas Tompkins, que já comprou centenas de milhares de hectares de terra virgem, sobretudo na América Latina, apenas para assegurar que o Homem não as destruirá... as fotografias são do «nosso» João Pina.

domingo, 28 de novembro de 2010

Wikileaks, parte III


Aí estão, quentinhas, as revelações prometidas para esta semana pelo Wikileaks. O site da organização terá sido atacado mas o conteúdo dos documentos (mais de 250 mil mensagens diplomáticas do Departamento de Estado norte-americano) está a ser revelado através dos sites do Guardian, do New York Times e do El País. As revelações estão já a causar muitos embaraços, apesar de, nos últimos dias, Hillary Clinton se ter desdobrado em telefonemas para líderes de todo o mundo, tentando atenuar o impacto desta fuga de informação. Resta saber como poderá justificar, por exemplo, a ordem que terá dado aos norte-americanos na ONU para que espiassem os diplomatas de outros países, metendo o nariz nas suas contas de e-mail, analisando movimentos de cartões de crédito e até recolhendo o seu material genético...

Time: 2000-2010


O ano está quase a acabar e a Time aproveita para fazer um balanço da última década: What Really Happened 2000-2010. Num dossier com vários textos de análise, fiquei presa a Instant Icons: Life After the Headlines. E com vontade de ler mais (muito mais!) sobre o que aconteceu a figuras tão mediáticas, que entraram nas nossas vidas durante alguns dias ou semanas mas que, depois, desapareceram do nosso 'radar'. Lembram-se de Elian Gonzalez, o menino cubano que foi 'resgatado' a familiares na Flórida por uma força de intervenção fortemente armada? Ou de Jessica Lynch, a militar norte-americana que foi raptada por iraquianos? O primeiro continua em Cuba, já tem 16 anos e apareceu recentemente ao lado de Raul Castro, numa parada militar. A segunda é hoje mãe de uma menina de três anos e continua a fazer terapia...
Nesta edição são também apresentadas as nomeações para a Personalidade do Ano, que vão desde o «estudante americano» ao «soldado gay». Já se aposta, contudo, que a distinção será entregue a Julian Assange e ao «seu» Wikileaks.

sábado, 27 de novembro de 2010

Vamos falar de cancro?

Deveria existir um manual de etiqueta para lidar socialmente com o assunto «cancro»? Christopher Hitchens, um dos mais brilhantes colunistas da Vanity Fair, deixa a pergunta na edição de Dezembro, em Miss Manners And the Big C, partilhando algumas das conversas embaraçosas que já teve desde que se tornou público que tem um cancro no esófago. Para nossa reflexão... e com algum humor pelo meio, como sempre acontece com os textos de Hitchens.

sábado, 20 de novembro de 2010

Volta ao mundo... em 80 dietas


Tenho tantas leituras em atraso que só hoje percebi que o El País arrancou, no domingo passado, com um especial «Volta ao Mundo em 80 dietas»... e logo com um delicioso texto de Ferran Adrià! O diário espanhol pretende ajudar-nos a reflectir sobre a nossa relação com a comida, bem como sobre as grandes diferenças que se agudizam no nosso mundo, em que uma parte da população passa fome e a outra é obesa... Aqui fica como aperitivo para a segunda parte desta série de textos especiais, a ser publicada amanhã.

Obama e Cavaco, by Pete Souza


É a foto do dia, no site da Casa Branca... Foi tirada ontem em Lisboa, pelo fotógrafo oficial de Barack Obama, Pete Souza (que tem ascendência portuguesa, pois claro). Quem sabe, sabe!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

The face of facebook


Mais uma fabulosa capa da New Yorker, recordando-me que é já no próximo domingo que se volta a correr a maratona em Manhattan. Há exactamente um ano também eu lá estava, procurando um bom lugar nas imediações de Central Park para ver passar os atletas. O tempo voa, mesmo...!
Mas nesta edição, não foi a leitura do artigo de capa que me entusiasmou mas sim The Face of Facebook, um fabuloso perfil de Mark Zuckerberg, escrito por Jose Antonio Vargas, jornalista de origem filipina já premiado com um Pulitzer. O autor entrevistou várias vezes o fundador da rede social ao longo dos últimos meses mas, de forma muito inteligente, acaba por desvendar muitos dos seus gostos e actividades recorrendo ao seu perfil no facebook... Ficamos a saber, por exemplo, que ele tem 879 amigos com quem partilha toda a informação pessoal (incluindo o nº de telemóvel), que tem três irmãs (também suas 'amigas'), ou que gosta de ouvir Green Day e Shakira. Mas há mais, muito mais a descobrir... E agora que o filme A Rede Social estreou em Portugal, a leitura deste artigo não podia ser mais apropriada. Boas leituras!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Presidente ou Presidenta?


Dilma Rousseff é a primeira mulher eleita para a presidência do Brasil - e isso trouxe constrangimentos linguísticos aos jornalistas brasileiros... o jornal Folha de São Paulo anuncia hoje que decidiu usar «presidente», e não «presidenta», para se referir a Dilma. «Em português, as duas formas estão corretas, 'mas a feminina é pouco usada', diz Thaís Nicoleti, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha.»
Já durante a campanha eleitoral, a equipa da petista ensaiou o uso do termo feminino mas depressa percebeu que a mudança não tinha um impacto positivo a favor da candidata. A campanha decidiu usar «presidenta» em comícios, deixando o termo «presidente» reservado para iniciativas com um público mais tradicional.

Rótulos à parte, o que interessa mesmo é o conteúdo. E a alma de Dilma está impressa aqui:

no perfil Ilusões Armadas, assinado por Fernando Rodrigues, no Folha;

«Foi numa sessão de cinema, "possivelmente um filme italiano, do [Federico] Fellini", que começou o namoro entre Dilma e o jornalista Cláudio Galeno de Magalhães Linhares.

Galeno já havia estado preso e tinha habilidade com produtos químicos. Seu pai era farmacêutico. "Andaram falando que eu fabricava bombas. Não tem nada disso. Fabriquei alguns protótipos de uma caixa com um dispositivo eletroquímico. Era para guardar documentos secretos. Se a repressão abrisse, a caixa entraria em combustão", diz. Só duas dessas engenhocas foram fabricadas. Uma acabou nas mãos da polícia. Não pegou fogo. O dispositivo não estava armado.
O casamento foi em setembro de 1967, só no civil. Familiares e amigos compareceram ao cartório. "Eram 30 ou 40 pessoas. Muitos já eram procurados. Se a polícia baixasse ali levaria alguns", diz Galeno, 25 anos à época. A noiva tinha 19.»


 n'As armas e os varões, de  Luiz Maklouf Carvalho, na fabulosa revista Piauí;

«“O pon está na mesa.” Pétar Russév não conseguia dizer “pão”. Falava pon. Búlgaro, tinha 1,95 metro de altura, olhos azuis, cabelos quase brancos de tão louros. Era advogado e fora filiado ao Partido Comunista da Bulgária. Quando aportou no Brasil, no final dos anos 30, já era viúvo e deixara um filho em sua terra (...)
Pétar Russév mudou o nome para Pedro e afrancesou o sobrenome para Rousseff.»

e, na mesma revista, a continuação deste trabalho, sob o título Mares nunca dantes navegados:

«(...) depois de saber que tinha um câncer linfático ela manteve o diagnóstico em segredo o máximo que pôde. O presidente só soube que ela faria uma cirurgia 48 horas antes. Sua filha Paula, na véspera. "Fica tranquilo, eu vou tirar de letra" foi a frase pós-cirurgia mais dita aos amigos de governo.

A ministra incorporou a idéia de que estava curada, e de que era preciso fazer o tratamento apenas para que não houvesse recidiva. Com isso na cabeça, manteve o ritmo de trabalho. Quem tenta convencê-la a diminuir ouve, além de uma aula sobre a doença, a explicação de que efeitos colaterais da quimioterapia - como dores fortes nas pernas que a levaram com urgência para o hospital - são consequências dos medicamentos, e não do seu ritmo de trabalho. "Ela tem muita dificuldade de assimilar a fragilidade".»

Boas leituras!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Primeiro i

Tal como aqui referi na semana passada, nasceu hoje um novo jornal no Reino Unido, um «filho» do Independent, dirigido a leitores mais novos - e com o pouco original título de i... Esta é a primeira página do número um, que pode ser visto (e lido) página a página graças a este link de um diário concorrente.