domingo, 22 de maio de 2011
#spanishrevolution
A luta continua. Pelo menos por mais uma semana. Foi essa a promessa deixada hoje pelos manifestantes acampandos na Puerta del Sol, no centro de Madrid. Durante a semana que passou, desde esse já histórico 15 de Maio (15-M), um jornalista do El País juntou-se a esta «geração à rasca» e publica hoje, no suplemento Domingo, uma grande reportagem sobre este movimento que está a sacudir o sistema:
Jon Aguirre Such abrazaba con los dientes apretados. No podía contener la emoción, la rabia acumulada, la indignación compartida. Estaba viviendo un sueño. Un sueño que se ha hecho realidad. El sueño de muchos. (...) "Casi me pongo a llorar. Veía a todo el mundo con cara de ilusión: '¡Es posible!". Jon cuenta su historia con orgullo, con pasión: "Acabamos de escribir Historia. No hay marcha atrás".
"Se ha producido una desestructuración muy acelerada de la sociedad", sostiene Miguel Martínez, sociólogo experto en movimientos sociales, profesor de la Universidad Complutense e investigador Ramón y Cajal. "La precariedad ha emanado de las élites políticas, han ido apretando las tuercas cada día más. Los gobiernos han llevado a cabo políticas muy agresivas para la mayoría de la población. El panorama es muy triste. Tenía que surgir una válvula de escape. La gente siente que su vida se volatiliza. Cuando llega la indignación, ya no pueden ir más allá, porque te hacen desaparecer como persona. Si pierdes la dignidad ya solo eres mano de obra".
quinta-feira, 5 de maio de 2011
A Luta na Eurovisão... e no Guardian
Os Homens da Luta já estão na Alemanha para representarem Portugal no Eurofestival da Canção e não páram de dar entrevistas para todo o mundo, depois de terem conquistado os jornalistas com uma conferência de imprensa «fora do baralho» e muito musical... O Guardian também ficou intrigado com estes músicos/comediantes e publicou um artigo da jornalista portuguesa Susana Moreira Marques, onde se explica não só o fenómeno mas se apela também ao voto nos concorrentes portugueses...
"Do you feel like leaving Europe when another Eurovision song contest is about to start? Are you feeling less than inspired by this year's British entry (...)? Well, from 10 to 14 May this year you can make a difference. Vote for Portugal at next Eurovision.
Portugal's entry, Homens da Luta, are a comic duo posing as 1970s political activists. They look like Latin American revolutionaries – complete with hats and moustaches, though less tanned – and refer to themselves as "professionals of the struggle".
(...) Their song, A Luta é Alegria, about taking to the streets and shouting with joy, is silly and ironic, and yet does seem to work: in Portugal, at least, it has become the soundtrack of people taking to the streets."
quarta-feira, 4 de maio de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Minuto de silêncio
O fotojornalista britânico Tim Hetherington foi ontem atingido por um morteiro em Misurata, na Líbia. O ataque das tropas de Khadafi matou também o fotógrafo norte-americano Chris Hondros. Outros dois jornalistas ficaram gravemente feridos.
Hetherington esteve em todas as frentes de batalha mediáticas dos últimos dez anos, era colaborador regular da Vanity Fair, venceu o World Press Photo em 2007, com esta inesquecível fotografia, e assinou o filme Restrepo, sobre a guerra do Afeganistão, nomeado para Melhor Documentário na última edição dos Óscares. No Vimeo publicou, há três meses, um filme especial, intitulado Diary, que nos permite, por instantes, perceber um pouco o que era a sua vida.
Hondros estava em serviço para a Getty Images e era também um jornalista experiente em cenários de guerra. Em 2004 recebeu o Prémio Pulitzer e em 2005 ganhou a medalha de ouro Robert Capa, com o júri a elogiar a «excepcional coragem» do jornalista.
domingo, 27 de março de 2011
Fado, by New York Times
(A fadista Ana Moura, por Ruth Fremson/The New York Times)
O fado, e a magia especial da voz das fadistas, em destaque no suplemento musical do New York Times. Deixo um excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui.
IN the beginning was Amália Rodrigues. That singer so dominates the modern history of the fado, Portugal’s soulful, guitar-based national song style, that during a 60-year career brought to an end only with her death in 1999, her name became virtually synonymous with the genre, leaving precious little room for others to flourish.
But during the past decade or so there has been an explosion of new voices, most of them female, as well as the renovation of a genre that had come to seem hidebound and resistant to change. A so-called novo fado, or new fado, movement has catapulted the genre into the 21st century, opening a space for bold experiments with repertory, instrumentation and ways of singing.
Outside Portugal the fadista (as a practitioner of the genre is called) most evident of late is the 31-year-old Ana Moura, whose smoky contralto has drawn the attention of the Rolling Stones and Prince and who has just released a live CD called “Coliseu.”
Outside Portugal the fadista (as a practitioner of the genre is called) most evident of late is the 31-year-old Ana Moura, whose smoky contralto has drawn the attention of the Rolling Stones and Prince and who has just released a live CD called “Coliseu.”
At home, though, she is just one of a bumper crop that includes Mísia, Mariza, Mafalda Arnauth, Dulce Pontes, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Raquel Tavares, Yolanda Soares and Kátia Guerreiro.
“We all have one thing in common, and that is the desire to renew the fado,” Ms. Moura, who will tour California and Canada this summer, said during an interview in New York. “This curiosity of young people for the fado is all very recent, and I think it can best be explained by this new approach to an old music that all of us have adopted.”
Fado, which means fate or destiny in Portuguese, dates to the 1820s and began, as Mariza said in a telephone interview, “as the music of a port, a place where mixtures take place, with sailors bringing influences from Brazil, Africa, the Arab world and even China” to the bars, taverns and bordellos they frequented. From the beginning the essence of the music was contained in the word saudade, which Portuguese speakers claim is untranslatable but which can be rendered as longing, yearning, nostalgia or melancholy.
terça-feira, 22 de março de 2011
Leitura da semana
Que grande, grande capa! O director de arte da Economist está de parabéns, provando que as grandes ideias são, quase sempre, ideias muito simples.
O artigo principal da edição, sobre os dias trágicos que se vivem no Japão, é igualmente bom:
"Up a shallow river, five kilometres from the Pacific coast in Japan’s north-eastern Iwate prefecture, lie the remains of a town. Crushed wooden houses now resemble matchwood, scattered in every direction over swampy wasteland. A purple car is partially submerged in mud. The piles of debris reach two metres high.
Only on close inspection do you see that it was never a town at all—at least not there. It was a rice paddy. The houses, shops, cars and people belonged lower down the valley. But the town is gone, washed away. Its debris settled on the field, high up the valley, that was the tsunami’s high-water mark. That is all that physically remains of Rikuzentakata."
terça-feira, 15 de março de 2011
Está aí alguém?
Será que ainda há quem passe por aqui, em busca de leituras que valem a pena? O meu bebé faz hoje dois meses e, confesso, o tempo para ler tem sido muito pouco... Obrigo-me a comprar um jornal todos os dias, espécie de ritual de «adulta» que tem ainda o mérito de me fazer sair à rua, apanhar sol na cara, sentir o cheiro do café (só o cheiro!) e ver outras pessoas. Mas leituras demoradas da imprensa internacional... tem sido mais difícil :)
Contudo, hoje li este artigo, sugerido por um amigo no facebook, e não resisti a partilhá-lo convosco. É o obituário da actriz Jane Russell, publicado esta semana na Economist. Escrever obituários é uma arte, especialmente acarinhada na imprensa anglo-saxónica. Não sei quem escreveu este texto fabuloso (o artigo não é assinado) mas tiro o chapéu a quem conseguiu centrar o tema não no talento mas no peito da actriz - e sem ser ordinário. O início chega para conquistar qualquer um:
PEOPLE seemed naturally to think in twos when Jane Russell’s name popped up. Bob Hope, her favourite kissing partner, once introduced her as “The two and only”. “What are the two great reasons for Russell’s success?” demanded the posters for her first and most censor-bitten film, “The Outlaw”, in 1943. American GIs, who worshipped her, gave her name to the twin hills that dominated a battlefield in Korea. And the little aircraft sent aloft to publicise “The Outlaw” over Pasadena simply made two large, hazy circles in the sky, with a point at the centre of each one.
The pair in question were neither voluptuous nor pneumatic by the standards of silicone inflation that came later. Miss Russell herself denied that they were even a size 38. A modest 36B was all she claimed.
Boas leituras... e até breve!
Contudo, hoje li este artigo, sugerido por um amigo no facebook, e não resisti a partilhá-lo convosco. É o obituário da actriz Jane Russell, publicado esta semana na Economist. Escrever obituários é uma arte, especialmente acarinhada na imprensa anglo-saxónica. Não sei quem escreveu este texto fabuloso (o artigo não é assinado) mas tiro o chapéu a quem conseguiu centrar o tema não no talento mas no peito da actriz - e sem ser ordinário. O início chega para conquistar qualquer um:
PEOPLE seemed naturally to think in twos when Jane Russell’s name popped up. Bob Hope, her favourite kissing partner, once introduced her as “The two and only”. “What are the two great reasons for Russell’s success?” demanded the posters for her first and most censor-bitten film, “The Outlaw”, in 1943. American GIs, who worshipped her, gave her name to the twin hills that dominated a battlefield in Korea. And the little aircraft sent aloft to publicise “The Outlaw” over Pasadena simply made two large, hazy circles in the sky, with a point at the centre of each one.
The pair in question were neither voluptuous nor pneumatic by the standards of silicone inflation that came later. Miss Russell herself denied that they were even a size 38. A modest 36B was all she claimed.
Boas leituras... e até breve!
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Tragédia no Rio
(Foto: Severino Silva/Agência O Dia)
"É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou"
Por Alexandra Lucas Coelho, em Teresópolis (Público)
"... não tinha luz, não tinha água...."
"... a estrada sumiu..."
".... eles morreram..."
Autocarro Rio de Janeiro-Teresópolis, ontem de manhã.
Silêncio, e gente ao telefone, a saber da gente.
Silêncio e uma mulher a soluçar.
Avançamos para norte e depois para nordeste. Teresópolis fica entre Petrópolis e Nova Friburgo, a meio da região serrana que de terça para quarta-feira foi devastada pelas chuvas. A grande subida começa uma hora depois da partida. É a formidável Serra dos Órgãos, com morros que metem medo, de tão altos e nus. Cá em baixo a vegetação é luxuriante. Hortênsias azuis vizinhas de bananeiras. Atlântico tropical.
Mas que estamos bem na serra vê-se pelos anúncios de queijos.
É paisagem de veraneio e férias. Muitos cariocas têm aqui casa, ou alugam pousadas. Há chalés, mansões, campos de cavalos. Mas também há encostas favelizadas, com barracos de tijolo. Ricos e pobres.
O autocarro contorna as curvas devagar, o abismo cresce, primeiros sinais de encostas caídas, uma ambulância de resgate. Mais um inquietante horizonte de morros. "Grota do Inferno" anuncia uma placa. O céu está cai-não-cai, cinza, chumbo.
Subimos e subimos. Aparece o pico conhecido como Dedo de Deus, uma rocha em forma de dedo gigante, célebre entre alpinistas. À esquerda uma cachoeira transbordante e o autocarro entra em Teresópolis. Nenhum vestígio de destruição na cidade. Mas vestígios da calamidade, sim: raparigas com faixas a pedir comida e roupa, engarrafamentos com carros que vieram trazer ajuda, jipes da Defesa Civil e carros de Bombeiros.
Na prefeitura, Sílvia e Mara actualizam o número de vítimas só em Teresópolis: 158 mortos [que ao começo da noite já serão 208], 1300 desalojados, 1200 desabrigados. "Desalojados são os que ficaram sem casa, mas estão a ficar com parentes. Desabrigados são os que não tinham para onde ir."
Estão no polidesportivo Pedrão, a duas ruas daqui. Carros e carrinhas a descarregarem sacos e caixas. "Roupa! Roupa! Roupa!" Os sacos passam de mão em mão. Em horas, a sociedade civil carioca mobilizou-se. E passando a entrada é difícil não ter um choque. Porque lá dentro é um gigantesco acampamento, com velhos e crianças enrolados em mantas. Toda a pista está coberta por colchões, gente e trouxas enroladas. E as bancadas a toda a volta repletas de sacos.
Por exemplo Robson, este mulatão de tronco nu, ao lado de uma menina. Está aqui com dez pessoas da família, e cinco são crianças. "A terra caiu e derrubou tudo, casa, carro, não sobrou nada", conta. Foi a meio da noite, de terça para quarta, quando uma tromba de água rebentou sobre os morros. "Eram três da manhã, estávamos em casa a dormir. Quando caiu a primeira terra, a gente conseguiu fugir. Escutámos na hora em que a água bateu. Começou a cair árvore, tudo começou a fazer barulho."
Mas Robson fala sereníssimo. "Não precisamos de nada. Tem água, tem comida, tem roupa. Está tudo bem." Só falta a mãe. "Ficou isolada, num lugar onde agora ninguém entra nem sai, no bairro de Caleme."
Caleme é uma freguesia metida no mato, junto ao morro. Para lá chegar faz falta um táxi que não se incomode com a lama e sobretudo a ajuda preciosa de Jorge Maravilha, um camaraman da prefeitura que chama a toda a gente Maravilha e toma a peito a missão de fazer chegar o PÚBLICO lá ao fundo.
O taxista avança entre encostas de barracos que dão lugar a sebes luxuosas, até que à nossa frente aparece um morro com uma grande lasca de terra arrancada. Uma das que desabou, engolindo casas, carros, postes e estradas. "Nossa Senhora, vai ter de desabitar tudo aquilo!", exclama Maravilha e, apontando as casas na encosta. "Vamos torcer para que não chova mais." Mas já está a chover. "Ontem filmei cadáveres em cima de árvore como bola de Natal." O taxista reforça: "Sou da terra e nunca vi nada assim."
A pé na enxurrada
Passamos um clube de golfe e um clube hípico, contornando uma escavadora coberta de lama. Tufos de hortênsias, lá em cima helicópteros. Uma placa anunciando Condomínio Roseiral. Casas luxuosas. "Superluxuosas", emenda Maravilha. "Cinematográficas."
E agora a rua acabou. O táxi, que já chegou aqui porque é um 4x4, tem mesmo de parar. Imaginem um piso de paralelepípedo. Agora imaginem esse piso destruído por uma bomba. É o que temos à frente dos olhos. Caminhamos sobre montanhas de pedras, misturadas com troncos.Será uma longa caminhada. Lama, água barrenta, árvores arrancadas ao longo das bermas, postes de electricidade caídos à nossa frente. E um carreiro de gente indo e vindo, de chinelas ou de galochas, transpirada, enlameada. "Lá em cima vão com calma, porque o clima "tá foda", avisa um conhecido de Maravilha, que vai voltar à cidade. "Tem corpos no chão."
Continua a chover. A mulata Rosa vai de chapéu aberto e chinela ao nosso lado. "Vou ver da minha irmã, das minhas sobrinhas. Fui até à delegacia [onde estão os nomes dos mortos], mas os nomes delas não estavam lá." Milhares de pessoas circulam assim, em busca de parentes. Há centenas de desaparecidos. "É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou. E os telefones não estão funcionando."
Aqui choveu em uma noite o que devia ter chovido num mês.
Rosa pára de repente, porque o caminho está interrompido por uma enxurrada. Para continuar, temos de meter pela sebe de uma grande propriedade. O dono está a deixar toda a gente passar pelo caminho interno em direcção ao morro, explicam os guardas Ivan e Cláudio, que vão orientando quem passa. "Aqui ao lado morreu muita gente", diz Ivan, apontando a encosta. "Tem ricos e pobres, mas 90 por cento dos mortos são os menos favorecidos." Porque não têm quem alugue um helicóptero - como fez por exemplo um músico da banda Kid Abelha para resgatar os filhos, aqui - e sobretudo porque moram em casas piores, e em lugares mais arriscados.
"É um absurdo a prefeitura permitir que construam nessas áreas", indigna-se Ivan. Maravilha tenta relativizar: "Ah, não tem como prever. O morro desceu todo." Ivan insiste: "O que é que o prefeito fez para proteger o pessoal que mora aqui?"
Marco António Roit, dono da propriedade, aparece a caminhar no relvado aparadíssimo. Parece uma propriedade inglesa, mas com os trópicos nas costas. "Isto era de uma família de grandes industriais e fazendeiros, os Guinle, donos do Copacabana Palace", explica. Tem 47 anos, é empresário de construção civil. Na noite de terça para quarta estava em São Paulo. Só conseguiu chegar aqui na tarde de quarta. "Abri logo a passagem porque a rua estava destruída. Para que a comunidade pudesse passar, ambulância, defesa civil... As pessoas estavam desesperadas. O pessoal da propriedade recolheu três corpos e colocou-os ali no gramado."
Atravessamos o atalho dentro da propriedade até ser possível voltar à ex-estrada. Passamos por baixo de um poste de electricidade. Trepamos a raízes arrancadas. "Tiraram mais dois corpos agora", diz um rapaz que vai em direcção contrária. "Era um casal dormindo junto." Como em Pompeia.
Continua a chover, mas a maior parte das pessoas caminham sem chapéu. ""Tá "brabo" ali..." alerta um homem, apontando para a frente. Agora o morro meio desabado está mesmo à nossa frente, e a estrada é uma torrente de água. As pessoas estão a passar por uma longa tábua suspensa. "Não olha para baixo, olha em frente", vai avisando Maravilha, que quer ajudar toda a gente.
O bebé no muro
À direita, uma casa destruída, com o rio de barro atravessando as salas, arrastando árvores. Gente exausta, encharcada, de luvas. E à esquerda gente a chorar, saindo de um portão. É a entrada de uma casa com um relvado. Um grupo rodeia um impermeável preto. Quando nos aproximamos, vemos formas humanas debaixo do impermeável, pés a saírem, embrulhados em mantas.
"Aqui estão três adultos e um bebé", diz o cabo Rodrigo Melo, da Polícia Militar. É daqui mesmo, da freguesia. Conhecia dois mortos pelo nome, o tal casal: "Liliane e Robson. E o bebé tinha dois meses. Encontrámo-lo agora, há uns 15 minutos." Não era filho do casal. "É de uma família ali", aponta o cabo. "Foi tirado daquele muro. Veio arrastado e parou ali no muro." Baixa a voz. "Estava prensado." Fica em silêncio. Ficamos todos em silêncio.
"Olhe, a tia do neném está chegando ali...", diz o cabo Rodrigo. As pessoas juntam-se todas em volta de uma rapariga. Um dos voluntários levanta o plástico preto. A rapariga debruça-se. Confirma que é o sobrinho. As pessoas desfazem a roda. Ela afasta-se. O plástico fica afastado, deixando ver uma trouxinha embrulhada num lençol branco. "Chamava-se Iuri", diz um dos voluntários.
Homens e rapazes cheios de lama. "O dono desta casa liberou para a gente botar aqui os corpos." Todos estavam aqui na noite de terça para quarta. "Escutei como se fosse um estalo muito forte", conta o cabo Rodrigo. "Era a cabeça-de-água que estourou na pedra. Eram umas três da manhã. Aí saímos de casa e começaram os gritos. As pessoas queriam descer para ajudar, mas deparavam-se com a força do rio. E as pessoas a gritarem por socorro, a serem arrastadas, jogadas contra o muro, a tentarem subir..."
Clayton, 24 anos, estudante de Direito da universidade de Teresópolis, "nascido e criado aqui", não dorme desde que começou a ajudar. "Retirei corpos da lama, fui buscar água, ajudei na condução, agora estou tomando conta dos corpos. Todos os que estão ajudando são moradores do bairro. Solidariedade nunca é de mais. O bairro inteiro está sem dormir. Não tem luz, não tem telefone, a água acabou. Eu moro ali naquela rua destruída pelo rio, mas a minha casa não corre perigo. Acho eu." Contou 22 corpos só neste lugar, desde ontem.
Subindo à rua destruída, Wanderleia, 42 anos olha para o rio, em catadupa, cercado de raízes e árvores. "Morreu uma senhora ali, que a água levou", aponta ela. "E aqui mais dois." Não ouviu o estalo ou estrondo de que muitos falam. Acordou a meio da noite com "um cheiro muito forte de raízes, de mato", e a cunhada a gritar. "Peguei nas crianças e saímos correndo."
De regresso, caminhando, cruzamo-nos com dezenas de voluntários com sacos de mantimentos e roupa, em direcção ao morro. Uma negra meio surda brada no meio da rua, ou do que foi a rua. "TUDO TEM UM TEMPO!" Chama-se Sueli Machado e tem 62 anos. Primeiro dormiu lá no polidesportivo, depois mudou-se para um abrigo da Igreja Metodista. "Perdi a parte da frente da minha casa, o meu carro foi embora no rio, e o rio virou um mar de areia. Agora vim ver. Preciso de tirar as minhas coisas." E já ao longe grita: "PERDI O ANEL MAS FICARAM OS DEDOS. E A FÉ EM DEUS!"
No autocarro para o Rio, um homem completamente enlameado abraça um menino de galochas totalmente cobertas de lama. "Descemos pelo mato 50 minutos, a abrir caminho com uma faca, e depois caminhámos três horas", conta. Deixaram tudo para trás. Soltaram os animais. É a casa de férias, num condomínio. "Morreu muita gente lá e a estrada acabou. Ficou totalmente destruída."
Ao sair do autocarro, com a sua roupa suja, e os seus sapatos empapados de lama, o homem estende-nos o cartão, feliz de ter chegado à rodoviária. Chama-se Sergio Bruni. É o vice-reitor da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Haiti, um ano depois
(Haiti, Janeiro de 2010/Patrícia Fonseca)
Foi há um ano. Sete graus na escala de Ritcher. 230 mil mortos.
Na tradição vodu, tão importante no Haiti, acredita-se que a alma dos mortos mergulha nas profundezas do mar e aí permanece durante um ano e um dia. Ou seja, as grandes cerimónias fúnebres recordando os mortos não acontecerão hoje mas sim amanhã. Milhares de famílias seguirão os sacerdotes vodu, rezando pelas almas que se libertarão das águas, pedindo para que reencarnem pacificamente nas árvores. Os haitianos dizem que, se ouvirmos atentamente quando o vento sopra, lá estarão, em sussurro, as vozes desses espíritos, tentando comunicar com o mundo dos vivos.
Eu não os ouço. Mas ainda ecoam em mim os lamentos dos que sobreviveram.
Tenho pena de não ter podido voltar a Port-au-Prince. Hoje gostaria de estar lá e de poder encontrar alguma explicação para o facto de só terem ainda retirado 5% do entulho que soterrou a cidade. De perceber porque raio não consegue Bill Clinton coordenar as mais de 4000 ONG's no terreno, a bem da população. Porque ainda existem mais de um milhão de pessoas em tendas, nas ruas, sem água nem saneamento, sem comida nem esperança.
As respostas não são fáceis de encontrar, eu sei. Mas algumas estão aqui, neste dossier do New York Times, e aqui, nas reportagens da enviada especial do El País. Ou neste artigo do Paulo Moura, no Público de hoje, As pedras ainda não saíram de cima de nós.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Leitura da semana
A primeira edição do ano da Time tem Aung San Suu Kyi brilhando na famosa moldura vermelha da publicação norte-americana. A «primeira-dama da liberdade», como poeticamente lhe chama a jornalista Hannah Beech, fala, numa entrevista exclusiva, sobre a sua frágil liberdade e os sonhos de democracia para o seu povo.
A fotografia de capa é do famoso retratista Platon (vencedor do World Press Photo em 2007 com um retrato de Vladimir Putin), que, pouco habituado ao suor e sangue do fotojornalismo, partilha neste vídeo as dificuldades sentidas para fotografar Suu Kyi em Rangoon, fugindo à polícia militar birmanesa.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Larry King - o último dia do reinado
O anúncio foi feito há uns meses mas o dia - o último dia de "Larry King Live" - chega hoje. Depois de 25 anos no ar, e cumpridas mais de 50 mil entrevistas, o «mestre» arruma os seus suspensórios. Quem se sentará hoje na cadeira oposta à sua? A informação permanece no segredo dos deuses... mas é certo que não será apenas uma pessoa.
Hoje, em jeito de homenagem, vale a pena dedicar uns minutos à leitura do artigo de Kathleen Gomes, correspondente do Público nos EUA:
«Larry King sabe o que perguntaria a Deus se ele fosse ao seu programa na CNN. "Tem um filho?"
Quando se entrevistou tanta gente como Larry King, sobra muito pouco por fazer. King também preparou perguntas para Osama bin Laden, pelo sim, pelo não. Não começaria pelos atentados de 11 de Setembro, porque isso poria Bin Laden "na defensiva". Perguntar-lhe-ia "por que deixou uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita para viver em lugares como o Afeganistão".
Se Deus ou Bin Laden descessem à terra, talvez só aceitassem ser entrevistados por Larry King. O seu programa, no ar há 25 anos, foi recentemente reconhecido pelo Livro dos Recordes Mundiais do Guinness como o mais sério caso de longevidade televisiva.
Em Junho, King entrevistou Lady Gaga. Dias depois, o comediante americano Bill Maher, que foi o convidado de Larry King, notou: "Pensei: "Quem mais é que consegue trazer a Lady Gaga ao seu programa? Nunca vi Lady Gaga em mais lado nenhum. Vi-a usar um aquário na cabeça. Mas nunca a vi a falar realmente com outro ser humano. Não fazia ideia de como ela era antes de falar contigo."»
Em Junho, King entrevistou Lady Gaga. Dias depois, o comediante americano Bill Maher, que foi o convidado de Larry King, notou: "Pensei: "Quem mais é que consegue trazer a Lady Gaga ao seu programa? Nunca vi Lady Gaga em mais lado nenhum. Vi-a usar um aquário na cabeça. Mas nunca a vi a falar realmente com outro ser humano. Não fazia ideia de como ela era antes de falar contigo."»
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
TIME - Personalidade do Ano
E o vencedor é... não, não é Julian Assange e o seu Wikileaks. A Personalidade do Ano eleita pela revista TIME é Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, por ter criado uma nova forma de relacionamento social e de partiha de informações, usada por mais de 550 milhões de pessoas, mudando a forma como vivemos.
Entre os finalistas, além de Assange, estavam os mineiros do Chile, Hamid Karzai e o Tea Party. Não contesto o vencedor, indiscutivelmente um dos génios da nossa era, mas... porquê este ano? Porque não no ano passado, ou há dois anos? Fica a ideia de que a revista não quis alimentar polémicas - nem arricar-se a perder os seus leitores patriotas, que vêem Assange como inimigo da América...
domingo, 12 de dezembro de 2010
Millenium BCP exposto no Wikileaks
A investigação é do El País e tem honras de destaque no site do jornal, neste domingo à noite: entre os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks há um em que o presidente do Millenium BCP, Carlos Santos Ferreira, propõe aos Estados Unidos fazer recolha de informações sobre o Irão a troco de poder fazer negócios naquele país... e tudo com o conhecimento do governo português. Um artigo bombástico de Francesc Relea, correspondente do diário espanhol em Lisboa, que recorda até os negócios antigos de Santos Ferreira com o Irão, nos anos 80, quando foi presidente da Fundição de Oeiras - e de como a venda de armas àquele país islâmico poderá ter estado na origem da morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A capa da semana
Mais uma capa feliz da Time, numa edição que nos oferece grandes textos para ler. Para começar, uma entrevista realizada via skype, antes da detenção de Julian Assange. Depois, vale a pena espreitar estes dois artigos, disponíveis online: WikiLeaks' War on Secrecy: Truth's Consequences e Why WikiLeaks Is Winning Its Info War. Boas leituras!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Um Nobel também chora
(Foto: DANIEL MORDZINSKI / El País)
Ele, que não é de lágrima fácil, emocionou-se - e emocionou quem o ouvia - durante o discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura (que pode ser lido, na íntegra, aqui). Atrás da primeira lágrima de Vargas Llosa, caiu num pranto a sua mulher, Patrícia, a sua agente, Carmen Balcells, o seu traduto sueco... e ao lado de todos esteve o jornalista do El País, Juan Cruz, que acompanhou «a semana sueca» do escritor e hoje publica uma crónica sobre este momento especial.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
«Não matem o mensageiro»
Julian Assange, o rosto por trás do site Wikileaks, assina um texto a publicar na edição de amanhã, dia 8, no jornal The Australian, com um título revelador: Não matem o mensageiro por revelar verdades inconvenientes. Assange pede ao público «protecção» para o Wikileaks, defendendo que «as sociedades democráticas precisam de meios de comunicação social fortes», que «mantenham os governos honestos».
E defende-se das acusações de «terrorismo informativo»:
«Every time WikiLeaks publishes the truth about abuses committed by US agencies, [there's] a chorus with the State Department: "You'll risk lives! National security! You'll endanger troops!" Then they say there is nothing of importance in what WikiLeaks publishes. It can't be both. Which is it?
It is neither.
US Secretary of Defence Robert Gates admitted in a letter to the US congress that no sensitive intelligence sources or methods had been compromised by the Afghan war logs disclosure. The Pentagon stated there was no evidence the WikiLeaks reports had led to anyone being harmed in Afghanistan. NATO in Kabul told CNN it couldn't find a single person who needed protecting.
But our publications have been far from unimportant. The US diplomatic cables reveal some startling facts:
► The US asked its diplomats to steal personal human material and information from UN officials and human rights groups, including DNA, fingerprints, iris scans, credit card numbers, internet passwords and ID photos, in violation of international treaties. Presumably Australian UN diplomats may be targeted, too.
► The US asked its diplomats to steal personal human material and information from UN officials and human rights groups, including DNA, fingerprints, iris scans, credit card numbers, internet passwords and ID photos, in violation of international treaties. Presumably Australian UN diplomats may be targeted, too.
► King Abdullah of Saudi Arabia asked the US to attack Iran.
► Officials in Jordan and Bahrain want Iran's nuclear program stopped by any means available.
► Britain's Iraq inquiry was fixed to protect "US interests".
► Sweden is a covert member of NATO and US intelligence sharing is kept from parliament.
► The US is playing hardball to get other countries to take freed detainees from Guantanamo Bay. Barack Obama agreed to meet the Slovenian President only if Slovenia took a prisoner. Our Pacific neighbour Kiribati was offered millions of dollars to accept detainees.
In its landmark ruling in the Pentagon Papers case, the US Supreme Court said "only a free and unrestrained press can effectively expose deception in government". The swirling storm around WikiLeaks today reinforces the need to defend the right of all media to reveal the truth.»
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Grandes histórias
(Foto: João Pina/ Kameraphoto para El País)
Imperdível este artigo do El País sobre o milionário Douglas Tompkins, que já comprou centenas de milhares de hectares de terra virgem, sobretudo na América Latina, apenas para assegurar que o Homem não as destruirá... as fotografias são do «nosso» João Pina.
domingo, 28 de novembro de 2010
Wikileaks, parte III
Aí estão, quentinhas, as revelações prometidas para esta semana pelo Wikileaks. O site da organização terá sido atacado mas o conteúdo dos documentos (mais de 250 mil mensagens diplomáticas do Departamento de Estado norte-americano) está a ser revelado através dos sites do Guardian, do New York Times e do El País. As revelações estão já a causar muitos embaraços, apesar de, nos últimos dias, Hillary Clinton se ter desdobrado em telefonemas para líderes de todo o mundo, tentando atenuar o impacto desta fuga de informação. Resta saber como poderá justificar, por exemplo, a ordem que terá dado aos norte-americanos na ONU para que espiassem os diplomatas de outros países, metendo o nariz nas suas contas de e-mail, analisando movimentos de cartões de crédito e até recolhendo o seu material genético...
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