quarta-feira, 20 de julho de 2011

Descoberta da semana

Só esta semana descobri esta revista australiana (obrigada Vasco!) que tem parte dos seus conteúdos disponíveis online. A Monster Children é uma boa surpresa, com uma atitude arrojada tanto ao nível do design como dos conteúdos. Cada número tem um tema central mas a revista não é temática, misturando de forma equilibrada interesses do mundo do surf, skate, design, música, cinema e fotografia.
A edição deste mês presta tributo a Dennis Hopper (na capa surge o seu olhar melancólico, a preto e branco, no cenário das filmagens de Apocalipse Now). Nas páginas seguintes viaja-se no tempo, começando por espreitar os centros comerciais americanos dos anos 80, para terminar nos dias de hoje, numa surf trip a Marrocos.
A assinatura para Portugal custa 100 dólares por ano (cerca de 20 euros por edição).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Grandes histórias

(Foto: Nicole Bengiveno/The New York Times)

Leio no New York Times que Diana Nyad quer fazer o que nenhum outro atleta jamais tentou: vestir o seu fato de banho e nadar os 165 km que separam Cuba das ilhas Key, na Flórida, sem parar. Quer isto dizer que, com sorte e muito ritmo, ela terá de nadar durante um dia e uma noite, depois outro dia e toda a noite, e ainda outro dia inteirinho.
Além da dureza física, esta prova é especialmente difícil porque estas águas estão infestadas de tubarões. Houve quem completasse provas como a que Diana sonha cumprir mas... nadando dentro de uma jaula. Ela já o experimentou, também - mas a experiência não foi bem sucedida e nadar enjaulada, no oceano imenso, não combina com esta mulher, que detem há mais de 30 anos o recorde de natação em mar aberto (102 milhas/164 km, de Bimini, nas Bahamas, a Jupiter, na Flórida).
Sim, leram bem, há 30 anos. Diana tem hoje 61. E diz que se sente fisicamente muito mais forte do que quando era uma miúda de 20. Mentalmente também. É com desassombro que explica  como conta afastar o medo dos tubarões cantando. A música parece ajuda-lá também a manter o ritmo das braçadas. Ticket to Ride, dos Beatles, é a sua preferida. Vou passar o Verão a trauteá-la, torcendo por ela.

domingo, 10 de julho de 2011

News of the World (1843-2011)

A primeira e a última edição do News of the World, que hoje se despediu das bancas, na sequência do escândalo com as escutas telefónicas ilegais que realizava (pelo menos...) desde 2005.
Sinceramente, é o tipo de leitura que não me fará falta. Mas é sempre triste ver um título morrer. Além disso, em 168 anos de história, como este best of hoje publicado comprova, nem tudo o que ali se escreveu era lixo. Posso não retribuir o «thank you» da sua derradeira manchete, mas aqui fica o meu «goodbye».

sexta-feira, 3 de junho de 2011

E emigrar para Marte? Podemos?


Leio aqui (graças ao Bureau of Investigative Journalism, organização sem fins lucrativos que se dedica à investigação jornalística), que a Comissão Europeia gastou, entre 2006 e 2010, mais de 7,5 milhões de euros só em jactos privados...
Além dos voos de luxo, há jóias compradas na Tiffany's, festas de arromba por toda a Europa, férias de comissários e respectivas famílias na Papua Nova Guiné...
Até Durão Barroso, concerteza desforrando-se dos tempos da tanga em Portugal, gastou 7 mil euros por noite num hotel em Nova Iorque. Factura de quatro noites de estadia: 28 mil euros. É bom recordar, já agora, que todo o orçamento da Comissão Europeia é suportado pelos contribuintes europeus. Tempos de austeridade? Só se for para os mesmos de sempre...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Leitura da semana


A revista Piauí continua a publicar alguns dos melhores textos do chamado jornalismo literário e é uma delícia descobri-los, com este saborzinho tropical, todos os meses. Foi o meu amigo (e também jornalista) Ricardo Rodrigues quem me chamou a atenção para esta fabulosa prosa (Baraquio Bama vale nota 10, na edição de Maio), comentando: «Há qualquer coisa de contraditório quando se lê uma narrativa notável sobre os que não sabem ler.»
Vale mesmo a pena, garanto-vos.
Em jeito de aperitivo, aqui fica um excerto:

"O subchefe Antônio Bonfim Ferreira, um baixinho branquelo muito musculoso, destacou a papeleta curva da impressora. “Xis... xis é peixe. Nando, vê pra mim aqui se é gurjão ou filé.” O auxiliar Nando, sem muita paciência, leu: “Prato feito de filé de peixe.”

Cozinheiro há mais de quinze anos, Antônio Bonfim enfrenta diariamente um adversário desigual: a automatização das comandas, introduzida no Garota em 2007. Até então os garçons iam à cozinha e cantavam os pedidos em alto e bom som. Hoje, digitam o código do pedido numa registradora manual do próprio salão do restaurante e o nome do prato sai escrito na impressora cinza-clara instalada na cozinha.
Para saber do que se trata, é preciso lê-lo. Mas Bonfim é analfabeto e boa parte de seus colegas só descobriu que ele não sabia ler com a chegada da novidade.
(...)
Muito antes da maquininha, Antônio Bonfim já vem tentando “abrir a mente”. No seu primeiro ano de Rio, em 1988, tentou um ano de “Mobral”,como continua a se chamar o programa federal que sucedeu a campanha de alfabetização dos militares. Sem sucesso. Foi a sobrinha quem conseguiu treiná-lo para assinar documentos. “O problema é que cada vez saía de um jeito”, disse.

Em 2004, já com 33 anos de idade, casado e com duas filhas pequenas para sustentar, soube pela esposa Lucivânia da abertura de um curso de alfabetização na Associação de Moradores de seu bairro. Ela também é analfabeta, apenas não se aflige em aprender a ler. Bonfim frequenta o curso até hoje. Treinou com afinco a padronização de sua assinatura e conseguiu renovar todos os documentos. “Inclusive o título de eleitor. Votei na Dilma duas vezes, uma seguidinha da outra. E a urna é fácil, é que nem um telefone”, contou. “Eu achei ela bonita, simpática. Mesmo quando falaram que ela era sapatona, eu nem quis saber.”
Ainda assim, em sete anos de aulas noturnas, cinco vezes por semana, não consegue distinguir a palavra “gurjão” de “filé”. “Parece que a minha cabeça está fechada. Talvez seja porque eu caí muitas vezes do jegue quando era pequeno.”

domingo, 22 de maio de 2011

#spanishrevolution


A luta continua. Pelo menos por mais uma semana. Foi essa a promessa deixada hoje pelos manifestantes acampandos na Puerta del Sol, no centro de Madrid. Durante a semana que passou, desde esse já histórico 15 de Maio (15-M), um jornalista do El País juntou-se a esta «geração à rasca» e publica hoje, no suplemento Domingo, uma grande reportagem sobre este movimento que está a sacudir o sistema:

Jon Aguirre Such abrazaba con los dientes apretados. No podía contener la emoción, la rabia acumulada, la indignación compartida. Estaba viviendo un sueño. Un sueño que se ha hecho realidad. El sueño de muchos. (...) "Casi me pongo a llorar. Veía a todo el mundo con cara de ilusión: '¡Es posible!". Jon cuenta su historia con orgullo, con pasión: "Acabamos de escribir Historia. No hay marcha atrás".

"Se ha producido una desestructuración muy acelerada de la sociedad", sostiene Miguel Martínez, sociólogo experto en movimientos sociales, profesor de la Universidad Complutense e investigador Ramón y Cajal. "La precariedad ha emanado de las élites políticas, han ido apretando las tuercas cada día más. Los gobiernos han llevado a cabo políticas muy agresivas para la mayoría de la población. El panorama es muy triste. Tenía que surgir una válvula de escape. La gente siente que su vida se volatiliza. Cuando llega la indignación, ya no pueden ir más allá, porque te hacen desaparecer como persona. Si pierdes la dignidad ya solo eres mano de obra".

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Luta na Eurovisão... e no Guardian


Os Homens da Luta já estão na Alemanha para representarem Portugal no Eurofestival da Canção e não páram de dar entrevistas para todo o mundo, depois de terem conquistado os jornalistas com uma conferência de imprensa «fora do baralho» e muito musical... O Guardian também ficou intrigado com estes músicos/comediantes e publicou um artigo da jornalista portuguesa Susana Moreira Marques, onde se explica não só o fenómeno mas se apela também ao voto nos concorrentes portugueses...

"Do you feel like leaving Europe when another Eurovision song contest is about to start? Are you feeling less than inspired by this year's British entry (...)? Well, from 10 to 14 May this year you can make a difference. Vote for Portugal at next Eurovision.
Portugal's entry, Homens da Luta, are a comic duo posing as 1970s political activists. They look like Latin American revolutionaries – complete with hats and moustaches, though less tanned – and refer to themselves as "professionals of the struggle".
(...) Their song, A Luta é Alegria, about taking to the streets and shouting with joy, is silly and ironic, and yet does seem to work: in Portugal, at least, it has become the soundtrack of people taking to the streets."

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Minuto de silêncio

O fotojornalista britânico Tim Hetherington foi ontem atingido por um morteiro em Misurata, na Líbia. O ataque  das tropas de Khadafi matou também o fotógrafo norte-americano Chris Hondros. Outros dois jornalistas ficaram gravemente feridos.
Hetherington esteve em todas as frentes de batalha mediáticas dos últimos dez anos, era colaborador regular da Vanity Fair, venceu o World Press Photo em 2007, com esta inesquecível fotografia, e assinou o filme Restrepo, sobre a guerra do Afeganistão, nomeado para Melhor Documentário na última edição dos Óscares. No Vimeo publicou, há três meses, um filme especial, intitulado Diary, que nos permite, por instantes, perceber um pouco o que era a sua vida.
Hondros estava em serviço para a Getty Images e era também um jornalista experiente em cenários de guerra. Em 2004 recebeu o Prémio Pulitzer e em 2005 ganhou a medalha de ouro Robert Capa, com o júri a elogiar a «excepcional coragem» do jornalista.

domingo, 27 de março de 2011

Fado, by New York Times

(A fadista Ana Moura, por Ruth Fremson/The New York Times)

O fado, e a magia especial da voz das fadistas, em destaque no suplemento musical do New York Times. Deixo um excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui.

IN the beginning was Amália Rodrigues. That singer so dominates the modern history of the fado, Portugal’s soulful, guitar-based national song style, that during a 60-year career brought to an end only with her death in 1999, her name became virtually synonymous with the genre, leaving precious little room for others to flourish.
But during the past decade or so there has been an explosion of new voices, most of them female, as well as the renovation of a genre that had come to seem hidebound and resistant to change. A so-called novo fado, or new fado, movement has catapulted the genre into the 21st century, opening a space for bold experiments with repertory, instrumentation and ways of singing.
Outside Portugal the fadista (as a practitioner of the genre is called) most evident of late is the 31-year-old Ana Moura, whose smoky contralto has drawn the attention of the Rolling Stones and Prince and who has just released a live CD called “Coliseu.”
At home, though, she is just one of a bumper crop that includes Mísia, Mariza, Mafalda Arnauth, Dulce Pontes, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Raquel Tavares, Yolanda Soares and Kátia Guerreiro.

“We all have one thing in common, and that is the desire to renew the fado,” Ms. Moura, who will tour California and Canada this summer, said during an interview in New York. “This curiosity of young people for the fado is all very recent, and I think it can best be explained by this new approach to an old music that all of us have adopted.”
Fado, which means fate or destiny in Portuguese, dates to the 1820s and began, as Mariza said in a telephone interview, “as the music of a port, a place where mixtures take place, with sailors bringing influences from Brazil, Africa, the Arab world and even China” to the bars, taverns and bordellos they frequented. From the beginning the essence of the music was contained in the word saudade, which Portuguese speakers claim is untranslatable but which can be rendered as longing, yearning, nostalgia or melancholy.

terça-feira, 22 de março de 2011

Leitura da semana


Que grande, grande capa! O director de arte da Economist está de parabéns, provando que as grandes ideias são, quase sempre, ideias muito simples.
O artigo principal da edição, sobre os dias trágicos que se vivem no Japão, é igualmente bom:

"Up a shallow river, five kilometres from the Pacific coast in Japan’s north-eastern Iwate prefecture, lie the remains of a town. Crushed wooden houses now resemble matchwood, scattered in every direction over swampy wasteland. A purple car is partially submerged in mud. The piles of debris reach two metres high.
Only on close inspection do you see that it was never a town at all—at least not there. It was a rice paddy. The houses, shops, cars and people belonged lower down the valley. But the town is gone, washed away. Its debris settled on the field, high up the valley, that was the tsunami’s high-water mark. That is all that physically remains of Rikuzentakata."

terça-feira, 15 de março de 2011

Está aí alguém?

Será que ainda há quem passe por aqui, em busca de leituras que valem a pena? O meu bebé faz hoje dois meses e, confesso, o tempo para ler tem sido muito pouco... Obrigo-me a comprar um jornal todos os dias, espécie de ritual de «adulta» que tem ainda o mérito de me fazer sair à rua, apanhar sol na cara, sentir o cheiro do café (só o cheiro!) e ver outras pessoas. Mas leituras demoradas da imprensa internacional... tem sido mais difícil :)
Contudo, hoje li este artigo, sugerido por um amigo no facebook, e não resisti a partilhá-lo convosco. É o obituário da actriz Jane Russell, publicado esta semana na Economist. Escrever obituários é uma arte, especialmente acarinhada na imprensa anglo-saxónica. Não sei quem escreveu este texto fabuloso (o artigo não é assinado) mas tiro o chapéu a quem conseguiu centrar o tema não no talento mas no peito da actriz - e sem ser ordinário. O início chega para conquistar qualquer um:

PEOPLE seemed naturally to think in twos when Jane Russell’s name popped up. Bob Hope, her favourite kissing partner, once introduced her as “The two and only”. “What are the two great reasons for Russell’s success?” demanded the posters for her first and most censor-bitten film, “The Outlaw”, in 1943. American GIs, who worshipped her, gave her name to the twin hills that dominated a battlefield in Korea. And the little aircraft sent aloft to publicise “The Outlaw” over Pasadena simply made two large, hazy circles in the sky, with a point at the centre of each one.

The pair in question were neither voluptuous nor pneumatic by the standards of silicone inflation that came later. Miss Russell herself denied that they were even a size 38. A modest 36B was all she claimed.

Boas leituras... e até breve!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tragédia no Rio

 (Foto: Severino Silva/Agência O Dia)


"É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou"
Por Alexandra Lucas Coelho, em Teresópolis (Público)


"... não tinha luz, não tinha água...."

"... a estrada sumiu..."

".... eles morreram..."

Autocarro Rio de Janeiro-Teresópolis, ontem de manhã.
Silêncio, e gente ao telefone, a saber da gente.
Silêncio e uma mulher a soluçar.

 
Avançamos para norte e depois para nordeste. Teresópolis fica entre Petrópolis e Nova Friburgo, a meio da região serrana que de terça para quarta-feira foi devastada pelas chuvas. A grande subida começa uma hora depois da partida. É a formidável Serra dos Órgãos, com morros que metem medo, de tão altos e nus. Cá em baixo a vegetação é luxuriante. Hortênsias azuis vizinhas de bananeiras. Atlântico tropical.

Mas que estamos bem na serra vê-se pelos anúncios de queijos.
É paisagem de veraneio e férias. Muitos cariocas têm aqui casa, ou alugam pousadas. Há chalés, mansões, campos de cavalos. Mas também há encostas favelizadas, com barracos de tijolo. Ricos e pobres.
O autocarro contorna as curvas devagar, o abismo cresce, primeiros sinais de encostas caídas, uma ambulância de resgate. Mais um inquietante horizonte de morros. "Grota do Inferno" anuncia uma placa. O céu está cai-não-cai, cinza, chumbo.
Subimos e subimos. Aparece o pico conhecido como Dedo de Deus, uma rocha em forma de dedo gigante, célebre entre alpinistas. À esquerda uma cachoeira transbordante e o autocarro entra em Teresópolis. Nenhum vestígio de destruição na cidade. Mas vestígios da calamidade, sim: raparigas com faixas a pedir comida e roupa, engarrafamentos com carros que vieram trazer ajuda, jipes da Defesa Civil e carros de Bombeiros.
Na prefeitura, Sílvia e Mara actualizam o número de vítimas só em Teresópolis: 158 mortos [que ao começo da noite já serão 208], 1300 desalojados, 1200 desabrigados. "Desalojados são os que ficaram sem casa, mas estão a ficar com parentes. Desabrigados são os que não tinham para onde ir."
Estão no polidesportivo Pedrão, a duas ruas daqui. Carros e carrinhas a descarregarem sacos e caixas. "Roupa! Roupa! Roupa!" Os sacos passam de mão em mão. Em horas, a sociedade civil carioca mobilizou-se. E passando a entrada é difícil não ter um choque. Porque lá dentro é um gigantesco acampamento, com velhos e crianças enrolados em mantas. Toda a pista está coberta por colchões, gente e trouxas enroladas. E as bancadas a toda a volta repletas de sacos.
Por exemplo Robson, este mulatão de tronco nu, ao lado de uma menina. Está aqui com dez pessoas da família, e cinco são crianças. "A terra caiu e derrubou tudo, casa, carro, não sobrou nada", conta. Foi a meio da noite, de terça para quarta, quando uma tromba de água rebentou sobre os morros. "Eram três da manhã, estávamos em casa a dormir. Quando caiu a primeira terra, a gente conseguiu fugir. Escutámos na hora em que a água bateu. Começou a cair árvore, tudo começou a fazer barulho."
Mas Robson fala sereníssimo. "Não precisamos de nada. Tem água, tem comida, tem roupa. Está tudo bem." Só falta a mãe. "Ficou isolada, num lugar onde agora ninguém entra nem sai, no bairro de Caleme."
Caleme é uma freguesia metida no mato, junto ao morro. Para lá chegar faz falta um táxi que não se incomode com a lama e sobretudo a ajuda preciosa de Jorge Maravilha, um camaraman da prefeitura que chama a toda a gente Maravilha e toma a peito a missão de fazer chegar o PÚBLICO lá ao fundo.

O taxista avança entre encostas de barracos que dão lugar a sebes luxuosas, até que à nossa frente aparece um morro com uma grande lasca de terra arrancada. Uma das que desabou, engolindo casas, carros, postes e estradas. "Nossa Senhora, vai ter de desabitar tudo aquilo!", exclama Maravilha e, apontando as casas na encosta. "Vamos torcer para que não chova mais." Mas já está a chover. "Ontem filmei cadáveres em cima de árvore como bola de Natal." O taxista reforça: "Sou da terra e nunca vi nada assim."
A pé na enxurrada

Passamos um clube de golfe e um clube hípico, contornando uma escavadora coberta de lama. Tufos de hortênsias, lá em cima helicópteros. Uma placa anunciando Condomínio Roseiral. Casas luxuosas. "Superluxuosas", emenda Maravilha. "Cinematográficas."
E agora a rua acabou. O táxi, que já chegou aqui porque é um 4x4, tem mesmo de parar. Imaginem um piso de paralelepípedo. Agora imaginem esse piso destruído por uma bomba. É o que temos à frente dos olhos. Caminhamos sobre montanhas de pedras, misturadas com troncos.Será uma longa caminhada. Lama, água barrenta, árvores arrancadas ao longo das bermas, postes de electricidade caídos à nossa frente. E um carreiro de gente indo e vindo, de chinelas ou de galochas, transpirada, enlameada. "Lá em cima vão com calma, porque o clima "tá foda", avisa um conhecido de Maravilha, que vai voltar à cidade. "Tem corpos no chão."
Continua a chover. A mulata Rosa vai de chapéu aberto e chinela ao nosso lado. "Vou ver da minha irmã, das minhas sobrinhas. Fui até à delegacia [onde estão os nomes dos mortos], mas os nomes delas não estavam lá." Milhares de pessoas circulam assim, em busca de parentes. Há centenas de desaparecidos. "É um terror, nem sei dizer. Metade do morro desabou. E os telefones não estão funcionando."
Aqui choveu em uma noite o que devia ter chovido num mês.
Rosa pára de repente, porque o caminho está interrompido por uma enxurrada. Para continuar, temos de meter pela sebe de uma grande propriedade. O dono está a deixar toda a gente passar pelo caminho interno em direcção ao morro, explicam os guardas Ivan e Cláudio, que vão orientando quem passa. "Aqui ao lado morreu muita gente", diz Ivan, apontando a encosta. "Tem ricos e pobres, mas 90 por cento dos mortos são os menos favorecidos." Porque não têm quem alugue um helicóptero - como fez por exemplo um músico da banda Kid Abelha para resgatar os filhos, aqui - e sobretudo porque moram em casas piores, e em lugares mais arriscados.
"É um absurdo a prefeitura permitir que construam nessas áreas", indigna-se Ivan. Maravilha tenta relativizar: "Ah, não tem como prever. O morro desceu todo." Ivan insiste: "O que é que o prefeito fez para proteger o pessoal que mora aqui?"
Marco António Roit, dono da propriedade, aparece a caminhar no relvado aparadíssimo. Parece uma propriedade inglesa, mas com os trópicos nas costas. "Isto era de uma família de grandes industriais e fazendeiros, os Guinle, donos do Copacabana Palace", explica. Tem 47 anos, é empresário de construção civil. Na noite de terça para quarta estava em São Paulo. Só conseguiu chegar aqui na tarde de quarta. "Abri logo a passagem porque a rua estava destruída. Para que a comunidade pudesse passar, ambulância, defesa civil... As pessoas estavam desesperadas. O pessoal da propriedade recolheu três corpos e colocou-os ali no gramado."
Atravessamos o atalho dentro da propriedade até ser possível voltar à ex-estrada. Passamos por baixo de um poste de electricidade. Trepamos a raízes arrancadas. "Tiraram mais dois corpos agora", diz um rapaz que vai em direcção contrária. "Era um casal dormindo junto." Como em Pompeia.
Continua a chover, mas a maior parte das pessoas caminham sem chapéu. ""Tá "brabo" ali..." alerta um homem, apontando para a frente. Agora o morro meio desabado está mesmo à nossa frente, e a estrada é uma torrente de água. As pessoas estão a passar por uma longa tábua suspensa. "Não olha para baixo, olha em frente", vai avisando Maravilha, que quer ajudar toda a gente.
O bebé no muro

À direita, uma casa destruída, com o rio de barro atravessando as salas, arrastando árvores. Gente exausta, encharcada, de luvas. E à esquerda gente a chorar, saindo de um portão. É a entrada de uma casa com um relvado. Um grupo rodeia um impermeável preto. Quando nos aproximamos, vemos formas humanas debaixo do impermeável, pés a saírem, embrulhados em mantas.
"Aqui estão três adultos e um bebé", diz o cabo Rodrigo Melo, da Polícia Militar. É daqui mesmo, da freguesia. Conhecia dois mortos pelo nome, o tal casal: "Liliane e Robson. E o bebé tinha dois meses. Encontrámo-lo agora, há uns 15 minutos." Não era filho do casal. "É de uma família ali", aponta o cabo. "Foi tirado daquele muro. Veio arrastado e parou ali no muro." Baixa a voz. "Estava prensado." Fica em silêncio. Ficamos todos em silêncio.
"Olhe, a tia do neném está chegando ali...", diz o cabo Rodrigo. As pessoas juntam-se todas em volta de uma rapariga. Um dos voluntários levanta o plástico preto. A rapariga debruça-se. Confirma que é o sobrinho. As pessoas desfazem a roda. Ela afasta-se. O plástico fica afastado, deixando ver uma trouxinha embrulhada num lençol branco. "Chamava-se Iuri", diz um dos voluntários.
Homens e rapazes cheios de lama. "O dono desta casa liberou para a gente botar aqui os corpos." Todos estavam aqui na noite de terça para quarta. "Escutei como se fosse um estalo muito forte", conta o cabo Rodrigo. "Era a cabeça-de-água que estourou na pedra. Eram umas três da manhã. Aí saímos de casa e começaram os gritos. As pessoas queriam descer para ajudar, mas deparavam-se com a força do rio. E as pessoas a gritarem por socorro, a serem arrastadas, jogadas contra o muro, a tentarem subir..."

Clayton, 24 anos, estudante de Direito da universidade de Teresópolis, "nascido e criado aqui", não dorme desde que começou a ajudar. "Retirei corpos da lama, fui buscar água, ajudei na condução, agora estou tomando conta dos corpos. Todos os que estão ajudando são moradores do bairro. Solidariedade nunca é de mais. O bairro inteiro está sem dormir. Não tem luz, não tem telefone, a água acabou. Eu moro ali naquela rua destruída pelo rio, mas a minha casa não corre perigo. Acho eu." Contou 22 corpos só neste lugar, desde ontem.

Subindo à rua destruída, Wanderleia, 42 anos olha para o rio, em catadupa, cercado de raízes e árvores. "Morreu uma senhora ali, que a água levou", aponta ela. "E aqui mais dois." Não ouviu o estalo ou estrondo de que muitos falam. Acordou a meio da noite com "um cheiro muito forte de raízes, de mato", e a cunhada a gritar. "Peguei nas crianças e saímos correndo."
De regresso, caminhando, cruzamo-nos com dezenas de voluntários com sacos de mantimentos e roupa, em direcção ao morro. Uma negra meio surda brada no meio da rua, ou do que foi a rua. "TUDO TEM UM TEMPO!" Chama-se Sueli Machado e tem 62 anos. Primeiro dormiu lá no polidesportivo, depois mudou-se para um abrigo da Igreja Metodista. "Perdi a parte da frente da minha casa, o meu carro foi embora no rio, e o rio virou um mar de areia. Agora vim ver. Preciso de tirar as minhas coisas." E já ao longe grita: "PERDI O ANEL MAS FICARAM OS DEDOS. E A FÉ EM DEUS!"
No autocarro para o Rio, um homem completamente enlameado abraça um menino de galochas totalmente cobertas de lama. "Descemos pelo mato 50 minutos, a abrir caminho com uma faca, e depois caminhámos três horas", conta. Deixaram tudo para trás. Soltaram os animais. É a casa de férias, num condomínio. "Morreu muita gente lá e a estrada acabou. Ficou totalmente destruída."

Ao sair do autocarro, com a sua roupa suja, e os seus sapatos empapados de lama, o homem estende-nos o cartão, feliz de ter chegado à rodoviária. Chama-se Sergio Bruni. É o vice-reitor da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Haiti, um ano depois

(Haiti, Janeiro de 2010/Patrícia Fonseca)

Foi há um ano. Sete graus na escala de Ritcher. 230 mil mortos.
Na tradição vodu, tão importante no Haiti, acredita-se que a alma dos mortos mergulha nas profundezas do mar e aí permanece durante um ano e um dia. Ou seja, as grandes cerimónias fúnebres recordando os mortos não acontecerão hoje mas sim amanhã. Milhares de famílias seguirão os sacerdotes vodu, rezando pelas almas que se libertarão das águas, pedindo para que reencarnem pacificamente nas árvores. Os haitianos dizem que, se ouvirmos atentamente quando o vento sopra, lá estarão, em sussurro, as vozes desses espíritos, tentando comunicar com o mundo dos vivos.
Eu não os ouço. Mas ainda ecoam em mim os lamentos dos que sobreviveram.
Tenho pena de não ter podido voltar a Port-au-Prince. Hoje gostaria de estar lá e de poder encontrar alguma explicação para o facto de só terem ainda retirado 5% do entulho que soterrou a cidade. De perceber porque raio não consegue Bill Clinton coordenar as mais de 4000 ONG's no terreno, a bem da população. Porque ainda existem mais de um milhão de pessoas em tendas, nas ruas, sem água nem saneamento, sem comida nem esperança.
As respostas não são fáceis de encontrar, eu sei. Mas algumas estão aqui, neste dossier do New York Times, e aqui, nas reportagens da enviada especial do El País. Ou neste artigo do Paulo Moura, no Público de hoje, As pedras ainda não saíram de cima de nós.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Leitura da semana


A primeira edição do ano da Time tem Aung San Suu Kyi brilhando na famosa moldura vermelha da publicação norte-americana. A «primeira-dama da liberdade», como poeticamente lhe chama a jornalista Hannah Beech, fala, numa entrevista exclusiva, sobre a sua frágil liberdade e os sonhos de democracia para o seu povo.
A fotografia de capa é do famoso retratista Platon (vencedor do World Press Photo em 2007 com um retrato de Vladimir Putin), que, pouco habituado ao suor e sangue do fotojornalismo, partilha neste vídeo as dificuldades sentidas para fotografar Suu Kyi em Rangoon, fugindo à polícia militar birmanesa.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ho-ho-ho!


A todos os leitores do Blogkiosk... um Natal 5 estrelas e um 2011 cheio de boas notícias!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Larry King - o último dia do reinado


O anúncio foi feito há uns meses mas o dia - o último dia de "Larry King Live" - chega hoje. Depois de 25 anos no ar, e cumpridas mais de 50 mil entrevistas, o «mestre» arruma os seus suspensórios. Quem se sentará hoje na cadeira oposta à sua? A informação permanece no segredo dos deuses... mas é certo que não será apenas uma pessoa.
Hoje, em jeito de homenagem, vale a pena dedicar uns minutos à leitura do artigo de Kathleen Gomes, correspondente do Público nos EUA:

«Larry King sabe o que perguntaria a Deus se ele fosse ao seu programa na CNN. "Tem um filho?"
Quando se entrevistou tanta gente como Larry King, sobra muito pouco por fazer. King também preparou perguntas para Osama bin Laden, pelo sim, pelo não. Não começaria pelos atentados de 11 de Setembro, porque isso poria Bin Laden "na defensiva". Perguntar-lhe-ia "por que deixou uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita para viver em lugares como o Afeganistão".
Se Deus ou Bin Laden descessem à terra, talvez só aceitassem ser entrevistados por Larry King. O seu programa, no ar há 25 anos, foi recentemente reconhecido pelo Livro dos Recordes Mundiais do Guinness como o mais sério caso de longevidade televisiva.
Em Junho, King entrevistou Lady Gaga. Dias depois, o comediante americano Bill Maher, que foi o convidado de Larry King, notou: "Pensei: "Quem mais é que consegue trazer a Lady Gaga ao seu programa? Nunca vi Lady Gaga em mais lado nenhum. Vi-a usar um aquário na cabeça. Mas nunca a vi a falar realmente com outro ser humano. Não fazia ideia de como ela era antes de falar contigo
."»
(Continuar a ler aqui.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

TIME - Personalidade do Ano


E o vencedor é... não, não é Julian Assange e o seu Wikileaks. A Personalidade do Ano eleita pela revista TIME é Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, por ter criado uma nova forma de relacionamento social e de partiha de informações, usada por mais de 550 milhões de pessoas, mudando a forma como vivemos.
Entre os finalistas, além de Assange, estavam os mineiros do Chile, Hamid Karzai e o Tea Party. Não contesto o vencedor, indiscutivelmente um dos génios da nossa era, mas... porquê este ano? Porque não no ano passado, ou há dois anos? Fica a ideia de que a revista não quis alimentar polémicas - nem arricar-se a perder os seus leitores patriotas, que vêem Assange como inimigo da América...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Millenium BCP exposto no Wikileaks

A investigação é do El País e tem honras de destaque no site do jornal, neste domingo à noite: entre os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks há um em que o presidente do Millenium BCP, Carlos Santos Ferreira, propõe aos Estados Unidos fazer recolha de informações sobre o Irão a troco de poder fazer negócios naquele país... e tudo com o conhecimento do governo português. Um artigo bombástico de Francesc Relea, correspondente do diário espanhol em Lisboa, que recorda até os negócios antigos de Santos Ferreira com o Irão, nos anos 80, quando foi presidente da Fundição de Oeiras - e de como a venda de armas àquele país islâmico poderá ter estado na origem da morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.