sábado, 26 de setembro de 2009

Salgado... e o tempo


Tempo. A ditadura destes dias velozes fazem-nos sentir inferiores, fracos e ultrapassados quando pedimos mais. Mas é mesmo preciso tempo para fazer bem. Corrijo: é fundamental. E é urgente.
Só hoje tive tempo para descobrir esta entrevista de Sebastião Salgado ao jornal brasileiro Estadão, a propósito da última viagem que o fotógrafo fará para concluir o projecto Génesis, iniciado em 2004, nas Galápagos. Desta vez irá de barco até à Geórgia do Sul, contornando as Malvinas. Durante dois meses, realizará a última de 33 reportagens, procurando os últimos lugares intocados pelo homem, nos cinco continentes.

Salgado sempre exigiu tempo para desenvolver a sua arte. Ele hoje sabe que precisa de várias semanas até que os índios de uma tribo o aceitem (e à sua máquina) mas já o pedia quando aceitava «encomendas» de grandes jornais, como se percebe quando recorda o serviço que fez para o New York Times, que lhe pedira um retrato de Italo Calvino:


«Viajei até Roma, me instalei num hotel e fui para a casa do escritor. Apertei a campainha, Italo veio até a porta e perguntou se eu era o fotógrafo do Times. Daí indagou quanto tempo eu precisaria para o serviço, já dizendo que uma hora estaria de bom tamanho. Eu expliquei: "Não, preciso de três dias." Ele reagiu de pronto, disse que jamais daria três dias da vida dele para mim ou para o Times. E eu rebati, então não dá para fazer. Estávamos nessa discussão quando chegou a mulher dele, uma argentina decidida, e botou ordem no pedaço. Não só ordenou ao Italo que ficasse à minha disposição o tempo que fosse preciso, como ordenou que eu me mudasse para a casa deles. Fotografei-o em casa, pelas ruas de Roma, fui para a casa deles em Paris, assim nasceu uma amizade que durou a vida inteira do Italo. Retrato precisa de tempo. E quem me pede para fazer um já sabe disso.»

1 comentário:

Tramagalense disse...

Descobri um livro de Sebastião Salgado, na biblioteca local quando era estudante. Imediatamente me apaixonei pela sua fotografia, aos pontos de propositadamente, visitar a sua exposição na Festa do Avante de 96 (salvo erro), onde também tive uma opurtunidade única de o ouvir falar sobre a sua fotografia e as suas experiências.
O que me cativa na sua fotografia é a capacidade de captar o momento e de o transmitir a quem observa as fotos, contando melhor do que ninguém a tal história de mil palavras.
Penso que este é o grande talento de Salgado e é por isso que o vejo como um dos meus fotografos favoritos de todos os tempos.
Pessoalmente adoraria fazer um trabalho deste género, de me dedicar por inteiro à magia da fotografia e viajar pelo mundo, procurando momentos únicos, para depois poder transmitir a quem tivesse interesse em observar o meu trabalho. No fundo isto é apenas um platonismo, mas passa também pela admiração ao trabalho de Sebastião Salgado.