domingo, 1 de março de 2009

O senhor Reprieve

(Foto: Jordi Adriá/El Pais)
Clive Stafford Smith foi o primeiro advogado a contestar a legalidade de Guantánamo. Americano de ascedência inglesa, fundou a organização Reprieve há 20 anos - a mesma que tem liderado as investigações aos voos da CIA, transportando prisioneiros para a prisão militar norte-americana em Cuba, com passagem por Portugal.
No El Pais de hoje, Smith partilha algumas das complicações da missão a que se entregou a tempo inteiro, desde 2002. Por acreditar que todos os homens têm direito a uma defesa, por pior que possa ter sido o crime que cometeram, queria oferecer os seus serviços, gratuitamente, aos detidos de Guantánamo. Mas, para isso, teria de saber os seus nomes - e os EUA não revelavam as identidades dos prisioneiros. Depois de meses de investigações, já com alguns dados, contactou novamente as autoridades americanas, dizendo que os queria defender. A sua oferta foi recusada. «Disseram-me que só poderia representá-los com o seu pedido expresso. 'Então podem perguntar-lhes se querem que os defenda?' Não, isso não podemos fazer.» Era um círculo vicioso. Mas Smith conseguiu furá-lo descobrindo e contactando familiares dos detidos. No caso de cidadãos britânicos e australianos, a lei era clara e permitia que a família nomeasse um defensor.
Em Novembro de 2004, Smith conseguiu entrar pela primeira vez em Guantánamo, como advogado dos britânicos Moazzam Begg e Richard Belmar. Todas as entrevistas e notas dos seus encontros com os detidos tinham de ser enviadas em envelope fechado desde a prisão para o Departamento de Estado norte-americano. O material era lido, censurado ou «classificado» e só o que os EUA permitissem é que poderia ser tornado público. Smith decidiu escrever uma carta de 40 páginas ao primeiro-ministro Gordon Brown, descrevendo as condições de tratamento aos dois cidadãos ingleses que representava. A ousadia deu resultado e valeu-lhe o apoio do governo britânico à sua causa. Gordon Brown recebeu a carta, com mais de 90% do conteúdo censurado (riscado a negro, tornando a leitura impossível.) No final, «sobrevivia» uma pequena nota de Smith: «Tudo o que aparecer riscado nesta carta é informação que os seus aliados dos EUA não consideram que o senhor deve conhecer.»

5 comentários:

João Carvalho disse...

Vim do DELITO DE OPINIÃO ler isto. E gostei muito.

Patrícia Fonseca disse...

Obrigada. Espero que volte mais vezes!

Paulo Sousa disse...

Resquícios da Administração Bush.
Esperemos que com Obama os EUA reassumam a sua autoridade em termos morais.

Paulo disse...

Excelente post. Indispensável informação...e pensar que o Departamento de Estado dos EUA se arroga em atribuir classificações às condições prisionais no mundo...é, de facto, um vício imperial.

Paulo disse...

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